Impressões de campanha
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de setembro de 2018
Domingos Pellegrini 
A campanha era o campo onde os exércitos antigos se encontravam para batalhar, daí que fazer campanha hoje tanto é guerrear com palavras quanto ir a campo procurar eleitores, tomando cuidado para não deixar nenhum nenê cair do colo.
Na Roma antiga, comícios eram as assembleias onde se exercia a democracia direta, com os assuntos públicos discutidos e votados pelos próprios eleitores, os patrícios, já que nem mulheres nem pobres votavam. Quanta evolução: hoje podem votar até presos provisórios, ainda não condenados, embora devam se justificar se não votarem. (Deve ser por coisas assim que Churchill disse ser a democracia a pior forma de governo depois de todas as outras já experimentadas.) E comício passou a ser aquele momento em que, na caminhada, o político rodeado de imprensa solta frases de efeito ou planos de impacto. É comício-minuto, mas para o país todo!

Entretanto, como espalhar santinhos passou a tirar voto, santinho hoje é só de mão para mão. Menino, vi rua pegar fogo, forrada de santinhos que caminhonetas lançavam de baldes; então algum menino (quem seria?) riscou um fósforo e a rua pegou fogo... Santa evolução.
Já na telinha ainda se vê candidato que a gente se pergunta porque não ficou em casa. Tem muitos candidatos a cargo federal que parecem candidatos a vereador de cidadezinha. Tem quem só diz nome e número, talvez inspirado no Prince ou na Anitta. E tem quem parece saído de comédia ou de filme de horror, o que porém deve atender à diversidade e à inclusão. É o horariotário eleitoral, e otário é quem assim quiser escolher candidato.
Aliás, o palhaço deputado, que anunciou desistir da política, desistiu de desistir e será novamente candidato a deputado palhaço. Bom: talvez seja o sinal de morte que faltava para o atual sistema político.
Parece que só o voto distrital poderá nos livrar dessa galeria de discursinhos onde até os melhores acabam iguais aos piores. Ou assim continuaremos elegendo deputados para um sistema que precisa ser reformado mas só será reformado se deputados não forem eleitos assim.
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Já para presidente, mesmo com o orçamento minguado e endividado, vimos candidatos prometendo criar isso e aquilo e muito mais, sem dizer de onde virá o dinheiro - o que entretanto parece coerente com a falta de administração financeira de quantos cevaram a crise se endividando sem fazer contas.
O jornalismo porém evoluiu ou involuiu a ponto de entrevista virar confronto. O jornalista pergunta e não deixa o entrevistado responder, interrompe para contestar, depois rebate e enfim bate boca. Mas é bom para a gente ver quem sabe absorver pancada e quem é mestre em inventar saídas.
Tem quem sai pela tangente, tem quem sai acusando até quem já morreu e não pode se defender, e tem até quem sai fora de si. Tem também quem perde eleição por uma frase infeliz e tem quem se faz famoso com frases infelizes.
Mas não há como negar que o marketing político também evoluiu. Os filmetes de propaganda são tão bem feitos, com argumentações tão bem tramadas que nos deixam a pensar se não seria melhor acabar com os intermediários e eleger diretamente os marqueteiros.
De modo geral, porém, as eleições servem para novamente mostrar que o povo ainda não percebeu que o problema não são os governos (federal, estaduais e municipais) mas o custo do Estado. Os governos passam, o Estado continua sempre mais caro, inchado, endividado, atrapalhado, corrupto e incompetente.
E assim continua atual a velha lição de Platão: "O castigo dos bons que não fazem política é ser governados pelos maus". Mas ao menos até agora nenhum nenê caiu do colo de candidato.


