Imprensa perde um inovador
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quarta-feira, 22 de agosto de 2018
Reportagem Local 
A morte do advogado, jornalista e escritor Otavio Frias Filho, diretor de Redação do jornal Folha de S.Paulo comoveu toda a imprensa brasileira, além da classe artística no país. Isso porque, Frias teve uma importante e marcante trajetória na comunicação como mentor do "Projeto Folha", que modernizou o jornalismo no país, e também nas artes, sendo autor de seis peças de teatro, três publicadas em livro. Aos 61 anos, foi diagnosticado com câncer no pâncreas em 2017 e morreu na terça-feira (21), no Hospital Sírio Libanês, onde estava internado.

Paulistano, Frias Filho foi o responsável por consolidar o "Projeto Folha", conjunto de medidas editoriais que estabeleceu normas de escrita e conduta do jornal que é considerado como um dos marcos da imprensa brasileira. Esses princípios nortearam também o Manual da Redação, lançado em 1984, o primeiro livro do gênero colocado à disposição do público. Assumiu a chefia do jornal no início dos anos 1980 no período da campanha "Diretas Já", quando teve papel crítico ao regime militar. Frias Filho defendia a tese de que cabia ao jornalismo ser sempre crítico ao governo, não importando quem estivesse no comando do País. Ele manteve essa posição em todos os governos democráticos após o fim da ditadura. Durante o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992, chegou a ser processado pelo hoje senador pelo Estado de Alagoas. Entre 1994 e 1999, passou a escrever coluna semanal na página 2 da Folha, de opinião.
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HERDEIRO
Nascido em 7 de junho de 1957, o jornalista herdou o jornal do pai, Octavio Frias de Oliveira, que comprou a Folha com Carlos Caldeira Filho, em 1962. "Fui crescendo, e a ideia de trabalhar (no jornal) não me passava pela cabeça. Tanto que fui estudar Direito", disse ele, em 1988, em entrevista à revista Playboy. Por persistência do pai, Frias Filho passou a contribuir com a produção dos editoriais do diário em 1975, aos 18 anos, sob supervisão do editor Cláudio Abramo, enquanto ainda cursava a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Em 1978, o então estudante chegou a ser detido pela Polícia Militar enquanto fazia campanha para os candidatos a senador Fernando Henrique Cardoso e a deputado Eduardo Suplicy. Dois anos depois, em 1980, passou a integrar o conselho editorial da Folha.
JORNALISMO
Do conselho, ele assumiu a direção de Redação do jornal em maio de 1984, substituindo Boris Casoy, e ficou responsável pelo conteúdo do jornal, enquanto o irmão Luiz Frias ficou com a gestão financeira da empresa. Coube a Frias Filho defender o "Projeto Folha", que já estava em gestação e propunha mudanças no produto, divulgando os princípios editoriais do jornal enquanto abria espaço para colunistas de diversas correntes. Ao assumir a direção da Redação, disse que a Folha se caracterizava por ser "crítica", "no sentido de fazer com que cada objeto de notícia seja, ao mesmo tempo, objeto de crítica, ainda que esta consista em analisar um fato".
No início, a chegada de Frias Filho à chefia do jornal causou resistência por parte dos jornalistas antigos, especialmente os repórteres especiais, contrários à padronização de textos imposta pelo Manual da Redação e por avaliações periódicas que passaram a ser estabelecidas. Seguro de suas opções, o jornalista trocou peças-chave da Redação por jornalistas mais jovens, e a Folha passou a ser comandada por profissionais na casa dos 30 anos. Em entrevista à revista Imprensa, em 1987, afirmou que via a produção jornalística como uma indústria, ao defender a existência do manual, quando comemorava crescimento da tiragem do jornal que era associado às mudanças. Já em 2018, na quinta revisão do manual, voltou a defender o uso de critérios objetivos para qualificar o jornalismo, citando a seção "Erramos", criada em 1991.
ARTES
Frias Filho é autor de seis peças de teatro, três publicadas em livro, juntamente com ensaios sobre cultura (Tutankaton, Editora Iluminuras, 1991), quatro encenadas em São Paulo: Típico Romântico (1992), Rancor (1993), Don Juan (1995) e Sonho de Núpcias (2002). Publicou também Queda Livre (Companhia das Letras, 2003), no qual reuniu o que chamou de "investigações participativas": sete reportagens ensaísticas sobre experiências de risco psicológico. Em tom literário, com textos em primeira pessoa, ele contou experiências como saltar de paraquedas, experimentar ayahuasca no Acre, visitas a clube de trocas de casais e sadomasoquismo, e ainda sobre peregrinação em Santiago de Compostela, na Espanha. Deixou pronto o livro infantil "A Vida é Sonho e Outras Histórias para Pensar", uma coletânea de artigos publicados nos últimos anos e um livro inacabado que pretendia traçar um quadro entre ensaístico e autobiográfico, dos tempos e da vida de seu pai e, ao mesmo tempo, com suas próprias experiências.
CREMAÇÃO
O corpo de Frias Filho foi velado no cemitério Horto do Paz, em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, na terça (21). Estavam presentes familiares, amigos, empresários, intelectuais, artistas, políticos e dirigentes dos principais órgãos de comunicação do país. A cerimônia de cremação ocorreu às 13h30 no mesmo local. Frias Filho deixou as filhas Miranda, de 8 anos, e Emilia, de 1 ano, que teve com Fernanda Diamant, editora da revista literária Quatro Cinco, Um, e os irmãos Maria Helena, médica, Luiz, presidente do Grupo Folha, e Maria Cristina, editora da coluna Mercado Aberto.
(Com informações da Folhapress)


