Imprensa européia destaca 'Carandiru', apesar de tudo
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terça-feira, 20 de maio de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes<br> Especial para a Folha 
Apesar de ter sido sufocado pelo spots sobre ''Dogville'', de Lars von Trier, ''Carandiru'' foi destaque ontem na grande mídia impressa - jornais e revistas - que cobre diariamente o Festival de Cannes. Entre as revistas, os críticos americanos de ''Variety'' e ''Hollywood Report'' gostaram sem maiores restrições. Os franceses se dividiram: ''Le Figaro'' foi generoso, afirmando que ''o olhar de Babenco é objetivo e humanista'' e que (o filme) ''é a um só tempo uma realista descida ao inferno, um estudo equilibrado de uma comunidade maldita, às vezes aterrorizante, às vezes emocionante''. Já ''Liberation'', jornal tradicionalmente ''à gauche'', foi paradoxal e cruel quando, depois de minimizar o filme como temática e estética, afirma que ''a comparação com 'Cidade de Deus' dá ao filme de Babenco um ar envelhecido de afresco socialista''. E as enviadas italianas Giovanna Grassi, do ''Corriere della Sera'', e Maria Pia Fusco, do ''La Repubblica'', dão grande destaque principalmente à volta de Babenco à velha forma, ao sucesso comercial do filme no Brasil e a uma potencial carreira nos mercados americano, europeu e asiático.
Entrando hoje em seu oitavo dia, o 56º Festival de Cannes vem fazendo com relativo sucesso a necessária correção de rota, depois de um início entregue a folias e foguetórios com pouca ou nenhuma intimidade com a espécie de cinema que se acostumou a ver nesta mostra que, pelo menos em tese, deve sinalizar e refletir as inquietações da vanguarda da chamada sétima arte. Em todas as seções os melhores títulos vão naturalmente se impondo, e obras de qualidade insuspeitada merecem atenção mais cuidadosa, com destaque para a seleção competitiva, onde podem ser encontradas obras inteligentes e de grande sensibilidade. E nesta babel democrática também estão abrigados alguns equívocos, vários de proporções desastrosas.
A Turquia volta ao mapa
Desde a notoriedade de Gumaz Yuney (''Yol'') nos anos 1980 a Turquia não constava propriamente no mapa do cinema mundial. Mas ''Uzak'', um filme de ''arte'' por excelência, um minucioso, pausado, profundo estudo sobre a solidão nos grandes centros urbanos, vem redirecionar o foco das atenções para Ankara. O talento emergente chama-se Nuri Bilge Ceylan. ''Distant'' (o título em inglês, apropriado) é um exemplo de cinema que, quieta e verticalmente, mergulha com enorme aproveitamento no interior da vida das pessoas. Através de um belo estilo minimalista que lembra o início da obra de Antonioni, os dois solitários personagens urbanos da história são revelados ao espectador na melhor tradição daquele cinema europeu mais sério e elegante. Não deve levar a Palma de Ouro, mas seria reconfortante vê-lo de alguma forma recompensado.
América sempre violenta
Ano passado o diretor Michael Moore saiu de Cannes com o prêmio especial do 55º aniversario do festival por ''Bowling for Columbine'', o documentário devastador sobre o massacre na high school de Columbine, com mais de uma dezena de alunos fuzilados e mortos por dois colegas. Depois foi aquilo que se sabe, polêmicas, mais prêmios, Oscar da categoria com discurso apaixonado (''que vergonha, presidente Bush''). O tema - a violência na América com trágicos reflexos nas escolas - está de volta este ano com ''Elephant'', estréia americana na competição e um filme quase experimental de Gus Van Sant. Neste único dia-na-vida-dos-que estão-prestes-a-morrer, o problema é que o roteiro não providencia nenhuma informação de ''dentro'', nenhuma nova luz sobre as causas daquela consequência hedionda, limitando-se a ser simplista e evasivo. Van Sant falha ao lidar dramaticamente com um incidente real de proporções tão traumáticas. E o título restou enigmático até as explicações dadas na coletiva por Van Sant: (1) a violência é como um elefante numa loja de cristais: todo mundo vê mas ninguém consegue fazer nada; (2) uma referência nada sutil ao símbolo do Partido Republicano e (3) homenagem a um filme homônimo realizado pela BBC em 1989, sobre a violência na Irlanda do Norte.
A mortal monotonia italiana
Fragilidade italiana na única entrada do país na competição. ''Il Cuore Altrove'', de Pupi Avati, ambientado na Bolonha dos anos 1920, é um caso perdido de história de amor entre um professor irremediavelmente engessado pela timidez e uma bela jovem, rica, frívola, liberal e irremediavelmente cega após um acidente. Entre agridoce, sentimental e cômico, o filme em irritantes diálogos lidos com mortal monotonia, personagens estereotipados e uma insistente narrativa contra a corrente do momento histórico crucial da vida italiana, isto é, Avati simplesmente deleta das ruas qualquer sinal de Mussolini e do fascismo em ebulição.
França exercita a imaginação
Altos e baixos em mais duas presenças francesas nesta temporada de caça aos prêmios. Um inteligente, sofisticado e imprevisível quebra-cabeças cerebral e absorvente em ''Swimming Pool'', o sexto longa-metragem do jovem, prolífico e irrequieto François Ozon em apenas cinco anos. Bem sucedida e madura escritora inglesa de policiais passa por esterilidade criativa e vai descansar na casa de veraneio de seu editor, na França. A filha do patrão aparece de repente e convulsiona a estadia da mulher, ao mesmo tempo em que municia e refresca a fatigada imaginação da autora, que passa a trabalhar no fio da navalha entre ficção e realidade. A partir daí, Ozon constrói um sólido terreno minado, oscilando entre a sóbria profundidade e o exercício em torno da crueldade. As duas mulheres estão magnificamente interpretadas por uma charmosa Charlotte Rampling e uma ascendente Ludivine Sagnier.
Material indigesto é o que resulta do complicado mix erótico-mitológico proposto por Bertrand Bonello em ''Tiresia'', livre adaptação das várias interpretações possíveis em torno de Tirésias, personagem da mitologia grega, meio homem, meio mulher. E o Brasil está presente de novo na tela: na concepção atrevida de Bonello, Tiresia é um transsexual brasileiro (a brasileira Clara Choveux) de grande beleza trabalhando clandestinamente na periferia noturna de Paris. Um esteta o compara a uma rosa perfeita e o sequestra. Privado de sua dose diária de hormônios, Tiresia se transforma pouco a pouco e ''volta'' a ser homem (o brasileiro Thiago Teles). Seu raptor acaba lhe furando os olhos. Fala-se muito português no filme, e a imagem brasileira sai com alguns arranhões - há uma cena em que três transsexuais conversam na cama sobre as dimensões de certa parte da anatomia masculina, com o lábaro estrelado bem visível na parede ao fundo.
O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge está em Cannes a convite do festival e com apoio da Sercomtel.


