CARNAVAL IMPRENSA DÁ SAMBA A escola de samba Garotos Unidos Londrinenses leva a história da Folha hoje para a avenida Paulo WolfgangJoão Milanez, fundador da Folha de Londrina vai desfilar num carro alegórico: ‘‘A homenagem é um reconhecimento para o jornal que cresceu com a cidade’’Dorico da SilvaO clima no barracão da escola foi de total concentração: chapas de off-set transformaram-se em carros alegóricos criados por Edson Massuci (à esquerda) Ranulfo Pedreiro De Londrina No início do século havia um jornalista não convencional no Rio de Janeiro. Conhecido como João do Rio, ele mergulhava no cotidiano distante dos hábitos da belle époque, que ditavam o comportamento das elites. Sua grande pauta eram a rua, os carroceiros, os ambulantes, a vida no dia-a-dia. Certa vez João do Rio subiu o morro até encontrar uma palhoça, onde o batuque embalava a dança e o canto. Era uma festa, com bebida e alegria, comandada por negros – nesta época, os brancos não frequentavam essas reuniões. A farra foi até a madrugada, quando todos adormeceram no chão. Publicada, a crônica provocou escândalo no Rio de Janeiro. No contexto histórico, foi um dos primeiros contatos entre o samba que estava se configurando e o jornalismo. A ligação Imprensa-Carnaval remete ao século passado, com publicações que só circulavam, até meados dos anos 50, no reinado de Momo. O elo é anterior ao samba, que surgiu no início do século 20 e só nos anos 30 se tornou a principal música da festa. Imprensa e Carnaval se aproximam em vários caminhos. Em Londrina, há alguns anos, a Folha participou de um desfile com jornalistas em um grande carro representando rotativas. Hoje, o jornal é tema de samba-enredo da Garotos Unidos Londrinenses. Não por coincidência, o cenário do barracão da escola, esta semana, lembrava uma gráfica pós-impressão. Chapas de off-set espalhadas por todo o lugar, em meio a tinta e folhas de jornais. Semelhantes à bagunça neurótica de uma redação, os preparativos da escola pareciam um nó a ser desatado até o desfile. Mas, como no jornalismo, há uma ordem nessa aparente confusão. Para transformar o enredo ‘‘Folha de Londrina: do pergaminho ao off-set, rumo ao terceiro milênio, cinquenta anos fazendo seu papel’’ em alegorias, o artista plástico Edson Massuci – convidado pela escola – contou com a sucata do próprio jornal. Os carros e as esculturas foram feitos com chapas utilizadas na impressão em off-set e folhas de antigas edições. ‘‘O resultado ficou melhor do que eu imaginava, superou as expectativas. Tivemos apenas duas semanas, foi a maior correria, trabalhando dia e noite. Está tudo representado: o fotógrafo, o gráfico, o jornalista, o jornaleiro, todos os cadernos estão nas chapas’’, ressalta Massuci. A escola vai contar com quatro carros: o abre-alas representa o processo de confecção do jornal e traz uma câmera fotográfica associada a uma impressora. O segundo representa a distribuição, com o braço do jornaleiro levando o jornal apoiado pela rosa dos ventos. O terceiro traz um bolo em comemoração aos 50 anos da Folha, que vai contar com a presença de jornalistas. O último é uma homenagem ao fotógrafo Orozimbo, representado em uma escultura. ‘‘Foi um grande desafio, nunca fiz algo parecido, mas já trabalhei em obras grandes feitas de jornal’’, completa Edson Massuci. A escola deve sair com 350 componentes e será a primeira a entrar na Avenida Leste-Oeste, hoje, a partir das 20 horas. A idéia do enredo agradou a João Milanez, fundador e presidente do Conselho de Administração do jornal. ‘‘Vou estar presente no carro que foi confeccionado com chapas da Folha. É, logicamente, mais um reconhecimento para o jornal, que vai fazer 52 anos e tem quase a idade de Londrina. A Folha sempre lutou para crescer junto com a cidade, e graças a Deus tem conseguido.’’ No barracão da Garotos Unidos, o clima durante a semana era de torcida e ansiedade. Correndo contra o tempo, o artista plástico e seus auxiliares grampeavam, cortavam e colavam, conferindo os resultados. Carregadas de matérias publicadas em sua curta vida útil, as chapas de off-set se transformaram em carros alegóricos, simbolizando uma relação entranhada na própria história do Carnaval.