O envolvente e vibrante primeiro longa-metragem solo da cineasta taiwanesa-americana Shih-Ching Tsou é uma jornada encantadora e colorida pela Taipei contemporânea, vista pelos olhos de várias gerações.

Trata-se de “A Garota Canhota”, a triunfante estreia na direção de Tsou, mais conhecida por sua longa carreira como produtora dos longas “Starlet”, “Tangerine”, “Projeto Florida” e “Red Rocket”, todos dirigidos nos Estados Unidos por Sean Baker, o premiado diretor de “Anora”. Tsou codirigiu com Baker “Take Out” em 2004, em Nova York, e sua influência é claramente evidente neste retrato honesto e íntimo da infância, permitindo que o espectador descubra ou redescubra a capital taiwanesa de uma forma inesquecível.

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Shu-Fen (a aclamada Janet Tsai) retorna a Taipei vinda de outra parte de Taiwan para abrir uma barraca de macarrão em movimentado mercado noturno, tentando se sustentar como mãe solteira de suas duas filhas: I-Ann (Shih-Yuan Ma), jovem universitária que encontra trabalho em uma barraca de venda da perigosa noz de betel (viciante, estimulante e cancerígena), onde precisa se vestir de forma provocante para atrair clientes homens; e a curiosa e cativante I-Jing (Nina Ye), de cinco anos. Embora testemunhemos em detalhes as disputas entre a mãe e a filha mais velha – ambas mulheres independentes que se chocam devido às suas personalidades –, é através da perspectiva infantil de I-Jing que somos verdadeiramente imersos na história, lançados em um novo universo de luzes brilhantes, lugares para explorar e pessoas para conhecer.

"A Garota Canhota" traz uma história honesta e íntima da infância através da I-Jing (Nina Ye) de cinco anos
"A Garota Canhota" traz uma história honesta e íntima da infância através da I-Jing (Nina Ye) de cinco anos | Foto: Divulgação

DOSE EXTRA DE HUMOR

O caos se instala com as artimanhas dos pais de Shu-Fen, incluindo um esquema de tráfico de passaportes liderado por sua mãe – que ganha muito dinheiro contrabandeando pessoas para os Estados Unidos – e a rejeição do pai ao fato de I-Jing ser canhota, o que faz com que a menina seja atormentada por sua “mão demoníaca”.

Esses personagens adicionam uma dose extra de humor a este drama com nuances de comicidade, no qual o roteiro de Tsou e Sean Baker amplifica os momentos mais serenos da trama até um clímax explosivo centrado na insanidade das disfuncionais famílias taiwanesas. A sucessão de eventos pode ser frenética às vezes, mas a diretora garante que nenhum dos três protagonistas seja negligenciado, entrelaçando habilmente suas histórias tanto no nível emocional quanto no narrativo.

No entanto, o que realmente faz o filme brilhar é a fotografia de Ko-Chin Chen e Tzu-Hao Kao. A câmera – frequentemente um iPhone ou uma lente grande angular – sempre acompanha a exuberante e magnética pequena atriz I-Jing na altura dos olhos, com um balanço suave que nos faz sentir como se estivéssemos viajando ao lado dela, mas com uma fluidez que permite percorrer os becos ao ritmo de uma música alegre e vibrante. As luzes de Taipei cintilam e brilham com a vivacidade dos leds festivos, enquanto as irmãs passam velozmente na moto de I-Ann.

Em “A Garota Canhota”, o árduo trabalho do drama dá lugar à rica recompensa visual, levando o publico a considerar com confiança que este é filme que é um prazer assistir.

A estreia de Shih-Ching Tsou na direção solo é mais do que promissora. Demonstra sua sensibilidade e visão, conferindo autenticidade e estilo ao filme. E, acima de tudo, deixa o espectador com a sensação de ter estado lá, de ter compartilhado algo íntimo, pequeno e precioso com aquelas três personagens.

Há envolvimento em sua energia, seu senso de humor, sua raiva feminista latente e nas atuações excepcionais de três ótimas protagonistas.

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