O mais difundido patrimônio cultural de Cabo Verde intensifica seus laços com a latinidade. Em seu novo álbum, ‘‘São Vicente di Longe’’ (BMG), a cantora Cesaria Evora cercou-se de amigos como Caetano Veloso e o pianista cubano Chucho Valdéz para brindar o público com mais uma bela coleção de mornas e coladeras, os ritmos de sua terra.
Amada pela nata das cantoras brasileiras, Evora vai dividir com o mestre João Gilberto e com o trompetista Wynton Marsalis a noite de abertura do 22º Festival Internacional de Jazz de Montreal, que será realizado de 28 de junho a 8 de julho próximos. Na Europa, é comparada a Edith Piaf. Nos Estados Unidos, a Billie Holiday e Bessie Smith.
‘‘São Vicente Di Longe’’ é seu oitavo trabalho. Foi gravado em Paris, Havana e Rio de Janeiro. A super-produção joga pá de cal sobre seus primeiro passos como cantora, quando ainda se apresentava para marinheiros de folga em bares de Mindelo, uma cidade portuária de Cabo Verde. A ‘‘diva dos pés descalços’’, como é chamada, alterna canções de andamento lento e ligeiro investindo em bem-sucedidos arranjos para cordas e metais.
Tudo é encaixado com adequação à sua interpretação. Nada parece destoar no sensível equilíbrio entre as tradições e memórias presentes, entre a rudeza e a sofisticação. Cesaria canta em crioulo, dialeto oriundo do português e de línguas africanas. Para quem desconhece a música cabo-verdiana, a faixa-título serve como um cartão de visitas sintetizando as heranças do fado e dos ritmos afros num fio de languidez e melancolia aqui representado pela morna com sua riqueza orquestral apoiada em cordas, piano e cavaquinho.
As coladeras, por sua vez, vêm em faixas sacolejantes como ‘‘Ponta de Fi’’, ‘‘Nutridinha’’, ‘‘Esperança Irisada’’ e ‘‘Pic Nic na Salamansa’’ invocando salões animados e a típica dança da umbigada. ‘‘Ponta de Fi’’ marca a estréia de Cesaria Evora na composição, com o habitual cavaquinho cabo-verdiano subtituído pelo tres, um instrumento cubano de sonoridade similar.
De Cuba, a cantora empresta também batas percussivas e acolhe as participações da Orquestra Aragón e do pianista Chucho Valdéz (que se apresenta em São Paulo nos próximos dias 25 e 26). Ainda em sua conexão internacional, Evora pinça do Brasil uma canção (‘‘Negue’’, de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos), um parceiro para compor um dueto na bela ‘‘Regresso’’ (Caetano Veloso) e um arranjador para cordas (Jaques Morelenbaum).
O repertório é impecável. Destacar uma ou outra faixa induz a omissões. É provável que repita o sucesso de ‘‘Café Atlântico’’, o disco anterior que trazia participação de Marisa Monte e chegou a vender 300 mil cópias na França. Aos 59 anos, a diva de Cabo Verde parece apenas manter – e perpetuar – sua grandeza.

mockup