''Cabe a tarefa escolar de casa no mundo de hoje?''. O questionamento é feito pela professora Martha Guanaes Nogueira, 67 anos, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, que esteve em Londrina para discutir o tema. Declaradamente contra a tarefa de casa, a professora defende que a criança precisa de tempo para simplesmente ''ser criança''. Ela aponta que antigamente se iniciava os estudos aos 7 anos e que hoje as escolas já aceitam alunos de 1 ou 2 anos.
Por um lado, a realidade atual em que pais e mães trabalham fora e precisam deixar os filhos em algum lugar, obriga as crianças a irem cada vez mais cedo para a escola, mas Martha afirma que com isso elas estão ficando sem tempo para brincar. ''O brincar não é a brincadeira dirigida feita pela professora com objetivo pedagógico, mas o brincar livre que leva à descoberta'', define. A professora acrescenta ainda que os pais estariam fazendo da escola babás.
A atividade escolar precoce gera, segundo Martha, adultos em miniatura. ''Na escola ela tem que cumprir horários e responsabilidades que fazem parte da vida de um adulto. Hoje a criança passa a infância na escola'', observa a professora. Martha lembra que a brincadeira é fundamenal para a criança, desenvolvendo o lado cognitivo, emocional, físico e social. ''É uma necessidade básica'', resume.
A pedagoga critica que a tarefa de casa é uma prática da escola tradicional e se baseia em exercícios de repetição que não auxiliam em nada o processo de aprendizagem. ''A escola moderna repete isso sem nem ao menos questionar sua validade. A tarefa de casa não tem nada a ver com a proposta da escola hoje'', enfatiza. Ela revela ainda que em várias situações a tarefa escolar acaba enganando professores, alunos e escolas. ''Levar a tarefa feita para a escola não é garantia de que o aluno aprendeu em casa'', afirma a professora.
Ela defende essa posição contando que muitas vezes essa tarefa é terceirizada. Os pais contratam professores particulares para ensinar os filhos. ''A criança acaba aprendendo à revelia da escola'', denuncia. Ela expõe ainda que os próprios pais, muitas vezes, fazem a tarefa para o filho, o que estaria invalidando a tarefa de casa. Para ela, ''se a tarefa é para fixar o que foi visto em aula, os pais deveriam parar de fazer a tarefa para os filhos''.
Esses dois fatores descritos, de acordo com Martha, promovem ainda um reforço na desigualdade social porque alunos de periferia não têm condições de aprender com professores particulares nem seus pais possuem conhecimento para ensiná-los. ''O menino vai para a escola sem a tarefa e é punido por isso'', destaca. Ela expõe ainda que a aprendizagem é um processo e que quando o professor vai passando o conteúdo adiante, acreditando que o aluno aprendeu porque na tarefa (nem sempre feita por ele) estava certo, gera uma defasagem na aprendizagem que pode levar à repetência ou evasão escolar. ''A tarefa de ensinar é da escola e não do pai ou professor particular'', defende.
Martha decidiu pesquisar o assunto por experiência própria. Ela conta que seu filho, quando pequeno, se recusava a fazer as tarefas porque queria brincar. Ela tentou localizar bibliografias sobre o tema e descobriu que não existia estudo sobre isso. Com 45 anos de prática em sala de aula, ela resolveu estudar a questão e entrevistou 254 alunos, 134 pais e 48 professores para desenvolver a tese de doutorado, feita na Unesp. O trabalho gerou o livro ''Tarefa de Casa - Uma violência consentida?'', que foi lançado no ano passado pela Edições Loyola.
Em seu trabalho, Martha constatou que as crianças se empolgam com a possibilidade de não existir a tarefa de casa simplesmente porque terão mais tempo para brincar. A professora informa que a tarefa de casa é proibida na França desde 1956 e na Espanha desde 1976, nos dois lugares para alunos até a 4 série. Em uma das escolas que adotou essa postura em Goiânia, onde ela vive, os professores perceberam que não houve prejuízos no processo de aprendizagem e que houve uma diminuição das faltas. ''Às vezes os alunos não faziam a tarefa e faltavam à aula por isso'', descreve. Martha garante que sem a tarefa de casa o aluno vai mais satisfeito para a escola, porque aquele é o momento de aprender. Caso contrário, o processo de aprendizagem vira um peso que impede a criança de brincar. ''O tempo que ela fica na escola é suficiente para aprender'', justifica.
Por isso Martha defende que a tarefa de casa seja abolida no ensino básico. ''Sem a tarefa, o aluno tem tempo livre para ser criança. Tenho convicção de que não teria prejuízo nenhum'', aponta. Ela diz ainda que a tarefa é sempre feita por obrigação e não para aprender. A professora critica também que muitos pais se ''escondem'' no momento da tarefa, achando que a atenção nessa hora é suficiente. ''É muito cruel saber que é preciso uma tarefa de casa para o pai estar perto do filho'', afirma.
Martha tem consciência de que essa mudança proposta por ela não acontecerá de uma hora para a outra. Ela até relata que em educação as vezes são necessários 20 anos para se mudar uma única coisa. Mas está convicta em sua posição e frisa que está ''lutando para que a tarefa de casa seja proibida na educação infantil''.

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