Imersão na cultura indígena
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sábado, 08 de setembro de 2018
Marcos Roman<br>Reportagem Local 
Embora muitas pessoas associem a floresta amazônica ao habitat natural de índios brasileiros, o Sul do País também abriga representantes de diversas etnias indígenas. Na região de Londrina, por exemplo, existem seis aldeias localizadas num raio de apenas 150 quilômetros da cidade. O desejo de conhecer de perto as peculiaridades desta cultura milenar que atravessa gerações e compartilhar experiências com nativos de diferentes tribos levou os integrantes da companhia londrinense de teatro Núcleo Ás de Paus a uma imersão por 11 comunidades indígenas distribuídas em várias regiões do Paraná e também de Santa Catarina. O resultado da experiência gerou a websérie "Na Casa dos Ancestrais", que pode ser acessada gratuitamente no site que leva o nome do grupo.

O cineasta e historiador Luiz Henrique Mioto, que viajou com a cia de teatro londrinense entre os meses de abril e dezembro de 2017 e foi responsável pelo registro audiovisual do projeto, explica que a produção da websérie teve como objetivo mostrar a riqueza da cultura indígena visando diminuir o preconceito que muitas pessoas sentem em relação aos índios. Ele esclarece que seguindo esse conceito, as filmagens foram divididas em quatro episódios com duração entre 20 e 30 minutos cada. "O primeiro episódio faz uma apresentação do projeto e dos personagens que foram entrevistados. O segundo é sobre a força, a liberdade e a sabedoria das crianças indígenas. No terceiro episódio os índios falam sobre toda a simbologia em torno das pinturas corporais. No capítulo final, os próprios indígenas fazem uma reflexão sobre o a maneira como vivem", esclarece.
Contemplados pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2015, os integrantes do Núcleo Ás de Paus viajaram por seis aldeias localizadas no Paraná: Apucaraninha, Barão de Antonina , Pinhalzinho, Laranjinha, Posto Velho e Palmeirinha. Já no estado de Santa Catarina, as aldeias-anfitriãs foram: Kondá, Toldo Pinhal, Toldo Chimbangue, Posto Sede do Xapecozinho e Pinhalzinho do Xapecozinho. "Somos artistas e dependemos da cultura popular para criar nossos espetáculos. A cultura indígena é riquíssima e precisa ser preservada, pois a maioria das, tradições, filosofias e rituais são repassados pelos mais antigos aos mais novos apenas pela oralidade, e por isso todo esse conhecimento pode acabar se perdendo com o tempo. Ter conseguido registrar toda essa nossa vivência junto aos índios é muito gratificante para nós", destaca o ator Rogério Francisco Costa, mais antigo integrante do grupo.
Ele conta que o que mais o impressionou durante as viagens foi o espírito de coletividade presente em todas as aldeias. "Todos lutam pelo bem comum. As aldeias são formadas por grandes famílias que vivem unidas e em comunhão. As casas não têm muro que as separem e ninguém precisa pedir permissão para entrar na casa do outro. As mulheres cuidam dos filhos umas das outras e percebe-se que lá isso funciona muito bem, ao contrário do individualismo em que vivemos nas grandes cidades", ressalta.

As diferenças entre as tradições cultivadas por cada tribo também chamaram a atenção dos visitantes. "A pintura corporal, por exemplo, tem significados distintos, conforme a etnia, assim como determinados rituais. Mas percebe-se claramente que, assim como nós, artistas, os índios mostram seu poder de resistência lutando por suas terras e para manter suas tradições que são ameaçadas de diversas formas. Seja pelo contato que os mais novos estabelecem com os moradores da cidade no período escolar, pois não há escolas com ensino de segundo grau nas aldeias e, devido ao preconceito acabam omitindo suas raízes indígenas para se sentirem inseridos no contexto urbano. Ou até mesmo pelo viés religioso, já que muitas igrejas acabam atraindo membros dessas comunidades indígenas e convencem os índios mais velhos a abandonarem antigos rituais afirmando que aquilo pode ter associação demoníaca", relata Costa.
Contando com apoio de lideranças indígenas acostumadas a fazer a ponte entre os visitantes e os moradores das aldeias, os atores tiveram a oportunidade de presenciar o dia a dia dos índios e assistir a muitas cerimônias ritualísticas. Costa ressalta que, em contrapartida, o grupo apresentou o espetáculo "A Pereira da Tia Miséria" nas onze aldeias visitadas e em onze cidades paranaenses. "Também além de realizamos vivências com pernas de pau que foram muito divertidas tanto para as crianças quanto para os adultos que vivem nas comunidades que visitamos", enfatiza.
O ator e o cineasta salientam que ao assistir à websérie as pessoas terão a oportunidade de refletir sobre os preconceitos sofridos pelos índios. "Muita gente acusa os índios de se afastarem de sua essência pelo fato de se vestirem e viverem como os brancos. "Mesmo havendo televisão e internet na maioria das aldeias a cultura indígena continua muito viva, tanto na linguagem quanto nos rituais, na alimentação, na ligação com a natureza e na maneira de viver coletivamente. Mas a maiorias das pessoas costuma colocar o índio numa posição miúda, como algo menor e invisível. Queremos com essa websérie ajudar a mudar essa maneira preconceituosa de olhar para um povo culturalmente tão rico", enfatiza Costa. "Não é porque um brasileiro come sushi que ele vira japonês. Da mesma forma não é porque um índio usa calça jeans ou anda de moto que ele deixa de ser índio, como muitos costumam afirmar. Precisamos repensar essa postura e olhar com mais profundidade para os indígenas, pois temos muito a aprender com eles", reforça Mioto.
Os episódios da websérie estão disponíveis no site www.nucleoasdepaus.com.br.


