Imediatismo é contra-producente no palco
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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2001
Francelino França De Londrina 
As duas primeiras estréias deste ano no teatro londrinense aconteceram com trabalhos realizados por escolas da cidade. Dois Perdidos Numa Noite Suja, de Plínio Marcos, trouxe a equipe da Escola Municipal de Teatro (EMT) para o espaço alternativo do Bar Valentino, na semana passada. A direção leva a assinatura de Silvio Ribeiro, marcando a estréia de Luiz Eduardo Pires e Rogério Costa no palco. Um trabalho ousado para atores estreantes. Afinal, montar um clássico da dramaturgia nacional exige um mergulho mais intenso no universo ficcional de Plínio Marcos. Na peça, duas figuras expõem a crueldade e a necessidade da amizade até as últimas consequências.
A montagem da EMT se pautou num processo rápido com apenas um mês de ensaios. Atores veteranos carecem de mais tempo para levar uma montagem desse quilate a contento. Estreantes, pela lógica, precisariam de um tempo maior. O resultado dessa inexplicável pressa para a estréia foi percebido. Apesar de o pingue-pongue fluir do começo ao fim, os atores Luiz Eduardo Pires e Rogério Costa alternaram os escorregões nos estereótipos, mas o primeiro consegue se sobressair. O ator Rogério Costa não abandona a mesma máscara nem o tom de voz choroso, numa tensão além daquela pedida pelo personagem.
A peça da EMT apresentou dois atores com potencial, mas ainda não totalmente prontos para enfrentar um texto como o Dois Perdidos.... Se com um mês de preparo eles tiveram momentos em que a atuação impressionou, com um tempo de maturação adequado poderiam alçar vôos maiores.
Como o autor joga a âncora inteiramente no pingue-pongue do texto, a ação se desenrola na palavra. Isso requer um aperfeiçoamento no sentido técnico da forma de dizer as palavras do maldito Plínio. A palavra passa a ser uma obsessão. Dois Perdidos.. permite inflexões inesperadas e coloridas. E nesse ponto a montagem da EMT precisa ser atacada, porque ficou claro que o envolvimento sonoro com o espaço não foi compreendido. Dois Perdidos Numa Noite Suja traz um conjunto humano que sensibiliza, assusta e emociona, o que faz o público se envolver emocionalmente.
Já o Teatro Cultura, dirigido por Beto Morbek, trouxe o universo bíblico para o palco. O musical Arca de Noé, adaptação de Rita dos Santos, apresenta um elenco formado por crianças. Seria cômica, se não fosse trágica a proposta feita por Beto Morbek. Além das músicas serem dubladas, os diálogos também são.
O diretor retirou uma prerrogativa fundamental dos atores de serem agentes da palavra. Independente do texto carregar no moralismo e maniqueísmo, o resultado lamentável no palco se baseou no imediatismo, o que traduz a falta de direcionamento da escola de Morbek. Na apresentação de domingo, uma fatalidade, deixou os atores mirins numa situação constrangedora. Em determinado momento da peça, o áudio com a dublagem enroscou. As crianças não sabiam como reagir diante da falha técnica. Enquanto a narradora zarpou correndo do palco, Noé e seus três filhos ficaram congelados, comprovando a relatividade do tempo teatral. Parecia uma eternidade. Ao final, as desculpas pelos deslizes foram seguidas por pedidos de orações pelos atores. Cobra-se ingresso e depois se apela para Deus.
Esse tipo de conduta imediatista nas montagens teatrais insere essa arte nos tempos do Brasil Colônia. As profissões ditas nobres e essenciais ainda são as que possuem mais estrutura no campo de ensino. O ofício do ator não é do tipo considerado prioritário. Os ofícios de médico, advogado, engenheiro têm uma herança científica da sua existência. As conquistas desses profissionais são palpáveis. As outras fenecem no fazer artesanal.
Além da formação básica, a escola de teatro precisa destacar o importância do papel social do ator, dando elementos para lutar contra a mesquinhez cultural. Outro papel básico de uma escola de teatro é o de inserir o ator como peça fundamental para a transformação da sociedade, se valendo da capacidade dele como agente cultural.
A pesquisa na área teatral é peça fundamental para encontrar uma proposta cênica brasileira, procurando combater o estereótipo e a padronização do comportamento. Estética e ética também se aprendem na escola. Antes de tudo, a escola é um espaço onde se pode errar.
É sempre bom lembrar que em terra de analfabeto, quem aprende algumas letras não pode se contentar em ser leigo, a responsabilidade social aumenta.


