Do lugar onde nasceu Nicolai Lilin, até o nome é complexo e fugidio: Transnístria.
Nem aparece nas enciclopédias como um país. É uma terra de ninguém encravada no leste europeu, que declarou independência em 1990, e vive num limbo legal -a Moldávia diz que é território seu, mas há outro governo que se declara autônomo, com apoio da Rússia.
A memória infantil de Lilin numa comunidade criminosa neste fim de mundo está descrita em ''Educação Siberiana'', que a Alfaguara lança no Brasil.
O autor, um tatuador de 30 anos que lutou do lado russo na Tchetchênia, hoje vive em Turim, na Itália, país onde o livro teve boa acolhida.
A obra de Lilin, que ele define como um romance baseado em sua história real, é fabular. Ele narra o submundo da máfia dos urcas siberianos. Glorifica tanto o crime, baralhando violência com dignidade, que chega a divertir com seus ''criminosos bons e honestos''.
Os urcas, criminosos deportados da Sibéria para a Moldávia por Stálin nos anos 1930, têm um tratado particular sobre armas: as ''honestas'' são para caça e devem ser guardadas num altar; as ''de pecado'' têm fins exclusivamente criminais e ficam escondidas. Todas as armas têm apelidos, as pessoas também - tudo no universo de Lilin tem apelido.
Os urcas de ''Educação Siberiana'' não podem dirigir a palavra a policiais. Se topam com um, o ignoram, e à mulher do criminoso cabe o papel de interlocução. Desprezam o dinheiro e não pronunciam o termo, substituído por ''lixo'' ou ''couve-flor''. É sagrado o respeito a velhos e deficientes. Os urcas possuem chapéus e canivetes típicos, seu ritual de chá é único, e por aí vai.
''Tentei documentar a existência dos urcas, mas não achei informação alguma, então decidi usar minhas lembranças desse povo, tentando recuperar o que foi essa comunidade um dia'', explica Lilin.
Para além de romantizar a ética criminal, o livro traz também relatos violentos - brigas das gangues que o narrador integrou, estupros no reformatório onde esteve preso, assassinatos, vinganças. Lilin fala mal de Deus e o mundo, georgianos, americanos, comunistas, outras máfias russas.
Conta que recebeu ameaças de morte e tem proteção policial. Só anda armado, o que acha muito natural: ''Venho de uma comunidade paramilitar e com tradição de caça. As armas tiveram papel importante na minha educação, eu as respeito, sei usá-las e tenho muitas.''
Lilin deixou a Transnístria aos 18 anos para lutar na Tchetchênia. Há menos de cinco anos foi morar na Itália, onde já vivia sua mãe. Considera o país sua nova pátria e escreveu o livro em italiano. ''Educação Siberiana'' teve 60 mil exemplares vendidos por lá, e seus direitos negociados para 18 países e para o cinema.
Lilin lançará em breve seu segundo livro, sobre a experiência na Tchetchênia. Será novamente, diz, uma ficção baseada em fatos reais.

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