IMAGENS TRAÇADAS A BURIL
O gravador Paulo Menten abre retrospectiva em Londrina em comemoração aos 50 anos de artes plásticas e 70 de idade
Ranulfo Pedreiro
Londrina
Durante a década de 60 o bancário Paulo Menten resolveu se dedicar à gravura. Ele já havia feito um curso de xilogravura com Lívio Abramo no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), e estava influenciado pelas obras que vira em uma das bienais de artes plásticas da cidade. Menten não teve dúvidas. Aproveitou-se de vários linóleos, utilizados pelo banco para proteger as mesas, e fez uma série de 14 linoleogravuras. Com elas participou da 1ª Exposição Internacional de Gravura.
Menten já havia trabalhado com pintura e escultura. Seu talento para as artes impressas foi ressaltado por Abramo, que, ao perceber os traços utilizados pelo aluno, exclamou: ‘‘você é um gravador nato’’.
Motivos não faltam para o artista comemorar em 1997. São cerca de 50 anos de pintura, mais de 30 de gravura e 15 vivendo em Londrina. Além disso, Paulo Menten está completando 70 anos hoje, dia em que inaugura uma retrospectiva na Sala Celso Garcia Cid, no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina (Rua Maranhão, 85), a partir das 20h30. A exposição ficará aberta ao público até o dia 6, e é considerada pelo artista uma ‘‘síntese de retrospectiva’’. ‘‘Tenho muitos trabalhos, e grande parte deles não está incluída nesta mostra’’, ressalta.
Bem humorado, Menten recebeu a Folha para uma entrevista em que relembrou os tempos de São Paulo, sua vinda para o Paraná, revelou que possui vários livros na gaveta e assegurou que pretende lançar vídeos com técnicas de gravura.
Por que você optou pela gravura?
Paulo Menten - Eu observo muito a matéria. Quando comecei, eu estava influenciado por uma bienal de São Paulo. No banco em que trabalhava, bati o olho naquela borracha usada para proteger as mesas e resolvi experimentar. Cada material tem um significado muito íntimo, de empatia. Uma gravura em madeira tem um significado, em metal outro. A textura de superfícies envelhecidas, por exemplo, dá personalidade ao material.
Como você entrou para o Núcleo de Gravadores de São Paulo, o Nugrasp?
Paulo Menten - Eu saí do banco e gastei o dinheiro viajando pelo Nordeste. Quando voltei, o Nugrasp me chamou para dar algumas aulas. Montei um ateliê, em poucos dias lotei o lugar com alunos. Lá eu formei mais de 400 pessoas, entre professores, profissionais e, principalmente, compradores de gravura. Fiz impressões para um monte de gente, como o Ademir Martins, por exemplo.
Depois seu ateliê foi fechado?
Paulo Menten - Na verdade, meu ateliê não chegou a ser fechado. O que aconteceu foi que o Núcleo mudou e eu permaneci no local, no prédio da bienal, por volta de 1972. Alguns artistas ficaram incomodados com minhas atividades, sabe como é, tem gente que se irrita quando vê alguém produzindo, e eu comecei a sofrer pressões para mudar. Resolvi levar o ateliê para São Caetano. Eu transportei parte do material para lá e, quando voltei para o prédio da bienal buscar o restante, encontrei tudo quebrado. Alguns equipamentos foram roubados e vários trabalhos foram destruídos. Passei dois anos em São Caetano e recebi convites para trabalhar em vários lugares, inclusive no exterior.
Por que você escolheu Cornélio Procópio, no norte do Paraná?
Paulo Menten - Eu passava por alguns problemas pessoais e acabei vindo para Cornélio. Lá havia um museu que resolvi reativar, mas não deu certo.
Antes disso, você fez uma campanha pelo MAM.
Paulo Menten: O Matarazzo, que mandava no museu, resolveu fechá-lo, transferindo o acervo para a USP. Me juntei a alguns artistas para impedir o fechamento, organizando um outro acervo. Foi criada uma comissão para reestruturar o MAM e saímos em busca de doações, mas tivemos uma dificuldade tremenda porque ninguém queria se indispor com o Matarazzo. Mas se o MAM existe hoje é em virtude desta movimentação.
De Cornélio, você mudou para Londrina.
Paulo Menten - Pois é, vim num acordo com a UEL e a prefeitura que acabou não dando certo. Aí eu passei a trabalhar sozinho.
Como está o panorama da gravura brasileira hoje?
Paulo Menten - A gravura é o último reduto de uma categoria sólida que não sofreu mistura. Muita gente que não trabalha como gravador está diluindo a técnica. Há uma miscigenação que acho até ofensiva. Veja bem, não se trata de ortodoxia. A gravura é uma linguagem altamente técnica, e você vê exposições específicas de gravura que apresentam litografias aquareladas. Quem põe aquarela em litografia é porque não conhece a técnica de imprimi-la a cores.
Você costuma afirmar que a gravura possui um grande futuro.
Paulo Menten - A gravura está com projeções futuras enormes. As técnicas modernas aumentam as possibilidades da gravura. Ela é altamente democrática porque permite a você multiplicar os originais. Um gravador ruim mal consegue realizar o primeiro original. Eu cheguei a imprimir cerca de cem com a mesma matriz, mas hoje faço menos. Eu gosto de variar, de reciclar gravuras. A arte de 1920 para cá é uma tremenda reciclagem, mas uma reciclagem intencional. Copiar é crime. A reciclagem é uma releitura de um trabalho feito.
Por exemplo?
Paulo Menten - Tenho uma série chamada ‘‘Menino de M-16’’, baseada em uma foto publicada durante a Guerra do Vietnã com um garoto carregando um fuzil. Transformei a foto em gravuras de várias cores e coloquei-as na parede. Elas dão um efeito de movimento, parece que o menino vai e volta. Essas gravuras estarão expostas na mostra que abre hoje.
Como foram as aulas com Lívio Abramo?
Paulo Menten - Eu fiz poucas aulas com ele, no Museu de Arte Moderna - MAM. Ele me ensinou basicamente a segurar o buril e outros instrumentos, o que é muito importante para o desenvolvimento da técnica.
Quais são seus próximos projetos?
Paulo Menten - Pretendo lançar um livro chamado ‘‘Técnicas de Xilogravar’’. Eu tenho cerca de dez livros que envolvem críticas, poesias e romances. Também quero realizar um vídeo para cada técnica de gravura no ano que vem, e vou escrever ainda sobre a técnica de gravar em chapa de alumínio. Sabe, parece que tudo que fiz até agora foi exercício. Acho que daqui em diante vou produzir um trabalho definitivo. No ano que vem talvez eu deixe a gravura em alumínio para trabalhar exclusivamente com cobre, além de me dedicar mais à pintura.
O pintor Paulo Menten vai expor em 1998?
Paulo Menten - Sim, vou realizar uma mostra chamada ‘‘Introdução à Metafísica Brasileira’’, com obras em acrílico. Em painéis, farei uma homenagem a Mário e Oswald de Andrade e alguns esboços sobre a tragédia da Candelária - que renderá uma releitura do ‘‘Guernica’’, de Picasso. Também tenho uma idéia para um monumento em homenagem aos derrubadores de peroba que se parece com o do Brecheret, em São Paulo.
Você já trabalhou com esculturas?
Paulo Menten - Em 1969 ganhei o Prêmio Opinião de escultura.
Você fez uma gravura chamada ‘‘Londrina Antiga’’. Como é sua relação com a cidade?
Paulo Menten - Sabe, há uma certa mania de que o que é bom é o que vem de fora. Todo artista deve se voltar para o local onde vive, isto deve ser projetado no que fazemos. Eu não sou de Londrina, mas estou enraizado na cidade. E penso que uma sociedade madura é a que consome a cultura que produz e dá condições para que ela exista.

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