Exposição de fotos do neo-realismo italiano é um dos destaques da 3ª Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba, ela reúne flagrantes que rompem com a cultura de só mostrar o belo
O país congelado pelo fascismo começou a ser desvendado por escritores, diretores de cinema e pelos fotojornalistas, que tão de perto acompanharam os horrores da guerra. A exposição de fotografias ‘‘Neo-Realismo na Fotografia Italiana’’ retrata a força de um povo depois de ter visto seu país destruído.
Com a guerra veio a miséria, a fome, a vontade de reconstruir e o forte compromisso social. Imagens fiéis, extremamente belas e poéticas, e que rompem com a cultura de só mostrar o belo, estão nessa mostra no subsolo do Museu Metropolitano de Curitiba.
Segundo o diretor artístico do Festival Photo Espãna, Alejandro Casteilote, que acompanhou a reportagem da Folha, os contrastes da miséria do pós-guerra e do que era mostrado pelos ditadores fascistas é o que mais impressiona. ‘‘Mussolini mostrava uma Itália industrializada e com estradas modernas. Os fotógrafos trouxeram à tona uma outra realidade.’’
As fotografias foram produzidas no período entre 1945 e 1960 por Mario De Biasi, Pietro Bonzelli, Mario Giacomelli, Nino Migliori, Enrico Pasquali, Federico Patellani, Tino Petrelli, Franco Pinna, Fulvio Roiter e Enzo Sellerio.
O acervo de dez fotos de cada um dos fotógrafos pertence a eles mesmos ou às suas famílias. Dos dez, já morreram Donzelli, Patellani e Pinna. Cada um explora um ou mais temas em seu trabalho fotográfico. Patellani fotografou os mineiros de carvão de Cagliari, que trabalhavam nus por não suportarem o calor, e o transporte público com dezenas de pessoas em cima de um caminhão.
Mario De Biasi retratou famílias na estação de trem de Milão, com crianças dormindo por cima das malas. Para Fulvio Roiter, os camponeses carregando fardos foi uma forma de mostrar a dureza da vida no campo. Crianças pobres estudando enroladas em trapos, com os pés descalços, ou senhoras que falam com as mãos, bem ao modo italiano de conversar, foram flagradas por Petrelli.
Mario Giacomelli, considerado um dos mais importantes fotógrafos do período do pós-guerra, fez trabalhos manipulando imagens. Ele procurou nos comportamentos sociais as marcas das suas imagens. Usa muito o preto e o branco puros, como nas fotos de padres brincando na neve. Homens e mulheres da Sicilia emocionam quem vê as fotos de Pietro Donzelli.
Algumas dessas fotos puderam ser distribuídas sorrateiramente no período da guerra, quando eram encartadas em revistas de arte ou de decoração. Apenas no fim da guerra toda a realidade veio à tona.
Segundo o diretor artístico Casteilote, alguns fotógrafos viajavam acompanhando antropólogos, para as regiões do sul da Itália. ‘‘Lá realizavam estudos das organizações sociais, principalmente das condições das famílias que viviam mais isoladas’’, conta.
Essa exposição já esteve em Madri, onde recebeu cerca de 60 mil visitantes e o catálogo teve de ser reeditado três vezes, em Braga (Portugal) e, de Curitiba, segue para Houston (EUA) e Turin (Itália), mas antes disso, os organizadores estão tentando levá-la para São Paulo, onde vivem muitos descendentes de italianos.
3ª Bienal Internacional da Fotografia de Curitiba. Exposição ‘‘Neo-Realismo na Fotografia Italiana’’, no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba (Avenida República Argentina, 3430), de terça a sexta-feira, das 13h às 20h30; sábados, domingos e feriados, das 15h às 18h30, até o dia 26 de novembro.

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