IMAGENS DOS QUATRO CANTOS DO MUNDO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de outubro de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para Folha 2 
Com 274 filmes que serão exibidos em 14 dias, começa amanhã a 24ª Mostra Internacional de Cinema. Preparo físico e olho clínico são requisitos.
Debruçada sobre os maiores festivais do mundo, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo entra em sua vigésima quarta edição fortalecendo um perfil definido desde suas origens: oferecer ao espectador brasileiro de imediato o paulistano , faminto por novidades, um imenso e variado cardápio de imagens com temperos e especiarias dos quatro cantos. Idealizada e mantida pelo crítico Leon Cakoff, a Mostra está completando quase um quarto de século em condições inéditas. E privilegiadas, já não era sem tempo. Pela primeira vez a organização correu muito mais atrás de filmes do que de dinheiro. Sempre incertos e complicados, os patrocínios e apoios desta vez não mais surgiram em meia porção. O orçamento original cerca de R$ 3,5 milhões pôde ser mantido e, por enquanto, os habituais rombos e sustos e moratórias estão afastados. Já para o século que vem é uma outra história.
Atento e incansável mercador, Cakoff mais uma vez peregrinou por todas as mostras competitivas e paralelas dos mais significativos festivais internacionais do ano, começando por Berlim em fevereiro, passando por Cannes em maio, Locarno em agosto e chegando a Veneza e San Sebastián no mês passado. O resultado desta vilegiatura pode ser conferido pelo público a partir de amanhã, logo cedo, em nove salas da capital paulista, que vão exibir 274 longas e curtas-metragens de praticamente todos os países com um mínimo de tradição cinematográfica. Ainda que um número considerável de títulos em oferta venha a frustrar expectativas, o momento é de legítima e consentida euforia: passado o pente fino e detectados os descartáveis, resta ainda uma extensa lista de obras de visão obrigatória. A tarefa ingente passa a ser seletiva, não devendo ser ignorado o controle mais criterioso que pode evitar excessos.
Com justiça cristalina, coube ao português Manoel de Oliveira e seu Palavra e Utopia abrirem oficialmente a Mostra Internacional, ontem à noite na Sala São Paulo. Hoje o veteraníssimo diretor, de 92 anos, participa de um debate com o publico na Sala Uol de Cinema. É um grande filme, dos melhores no recente Festival de Veneza, e tem tudo para reacender o debate em torno do quem fez o quê no sempre polêmico imbroglio que envolveu governantes, indios e catequistas no Brasil do Padre Antonio Vieira. Também de Portugal, Capitães de Abril, de Maria de Medeiros e os provocadores O Fantasma, Branca de Nevee Noites, todos saidos das mostras venezianas.
O público tem parada obrigatória para saborear o creme de la creme das versões 2000 de Cannes, Veneza e San Sebastian. Como os maravilhosos Eureka, japonês de Shingi Aoyama, As Coisas Simples da Vida, taiwanês de Edward Yang e o chinês (Hong Kong) In the Mood for Love, de Wong Kar-wai. O Irã, que tem na curadoria da mostra brasileira um amigo nos momentos bons, maus e razoáveis, vem com o grande vencedor de Veneza, O Círculo. O diretor, Jafar Panahi, é outra presença confirmada. A caçula do cinema iraniano, Samira Makhmalbaf, participa do evento com O Quadro Negro, Premio Especial do Júri em Cannes. Também na lista o superestimado Dancer in the Dark, digimusical de Lars von Trier que este ano levou a Palma de Ouro dada por um estranho júri presidido pelo cinematograficamente iletrado Luc Besson.
E há mais, muito mais. Atrações bem votadas, outras nem tanto; títulos mais notórios, outros imersos em convidativo anonimato. O cinema brasileiro recebeu destaque especial. Onze longas-metragens foram divididos numa seção Perspectiva do Cinema Brasileiro e parte em competição. Todos comercialmente inéditos, alguns com participação em festivais. Também em desfile a mais recente produção de curtas, representada por 20 filmes.
A Mostra Internacional de Cinema reservou um rigoroso banquete para cinéfilos que não abrem mão de grandes retrospectivas. Ou que não acreditam que o cinema possa prescindir de permanentes homenagens e referências a quem continua sempre a influenciar sonhos, segredos e paixões de novos homens de cinema. Nada menos que dois terços da filmografia do bruxo surrealista, don Luis Buñuel, estão ao alcance de todos, em especial de uma geração deslumbrada pela informática e pela digitalização. São 21 títulos, com destaque para o pouco visto mas fundamental Buñuel mexicano.
24ª Mostra Internacional de Cinema de São paulo. 20 de outubro a 2 de novembro. Exibições nas salas Cineclube Vitrine (Augusta, 2530), Cinesesc (Augusta, 2075), Espaço Unibanco de Cinema(Augusta, 1475), Cinemateca (Largo Senador Raul Cardoso, 207), Sala Uol de Cinema (Fradique Coutinho, 361), Cinearte (Av. Paulista, 2073), Centro Cultural São Paulo (Vergueiro, 1000), Cinemark (Av. Chucri Zaidan, 902), Masp (Av. Paulista), 1578). Ingressos a 6 e 3 reais (meia com carteirinha). Mais informações pelo telefone (11)3064.5819 ou pelo site www.mostra.org.


