Marc Ferrez tinha oito anos quando seus pais morreram envenenados de maneira misteriosa. Órfão, o garoto que corria pelas ruas do Rio de Janeiro foi levado para a França para ser criado por parentes. Na capital francesa conheceu uma novidade recém-inventada que o deixou deslumbrado: a fotografia.
Ao voltar para o Brasil com 17 anos de idade, Marc Ferrez começou a trabalhar numa loja do Rio de Janeiro especializada em publicações ilustradas. Era o ano de 1860 e, em contato com os raros fotógrafos em atividade no país, passou a se interessar cada vez mais pela nova arte.
O fato é que Marc Ferrez (1843-1923) se tornou o mais atuante fotógrafo brasileiro do século 19. Sua obra correu o mundo. Suas pesquisas em equipamento e técnicas foram revolucionárias. Sua imagens registraram um país muito diferente do Brasil que conhecemos hoje.
Sua obra pioneira pode ser apreciada em ‘‘Marc Ferrez’’, livro lançado recentemente pela Cosac & Naify Edições. Com texto de apresentação da historiadora Maria Inez Turazzi, o volume oferece um panorama completo da arte do fotógrafo.
Embora tenha trabalhado com ampla gama de estilos, a especialidade de Ferrez era paisagens. Para conseguir melhores resultados, desenvolveu um equipamento voltado para essa finalidade. Com a parceria do inventor francês M. Bradon, criou um aparelho capaz de realizar fotografias panorâmicas. Utilizando uma sistema semelhante ao mecanismo de um relógio, a câmara era capaz de fotografar uma área de até 190 graus. O tempo de abertura variava entre 3 a 20 minutos. A câmara pesava 110 quilos e empregava chapas de cristal (40 x 108 cm) pesando oito quilos cada. Os resultados eram revolucionários para época. Algumas dessas imagens foram utilizadas posteriormente como ilustrações de notas de 2 mil réis e 100 mil réis do Tesouro Nacional.
Outra proeza de Ferrez foi desenvolver um aparelho que, acoplado à câmara fotográfica, era capaz de registar imagens a bordo de barcos eliminando o movimento do balanço das ondas. Como fotógrafo da Marinha Imperial, precisava trabalhar no convés dos navios e o movimento da embarcação impossibilitava fotografias com nitidez ideal.
Marc Ferrez registrou a construção de grandes três ferrovias brasileiras, Santos-São Paulo, Paranaguá-Curitiba e Rio-Minas. Iniciada em 1880, a estrada de ferro Paranaguá-Curitiba era uma obra ousada para a engenharia da época. As imagens de Ferrez deram origem a um álbum intitulado ‘‘Estrada de Ferro do Paranᒒ entregue como presente à D. Pedro II. O raro álbum reunia 14 fotografias com panorâmicas da ferrovia e de algumas localidades da região.
Apesar de sua vasta produção, grande parte da obra de Ferrez se perdeu. Parte devido a incêndios, inundações ou deterioradas pelo próprio tempo. As imagens que sobreviveram compõem um valioso acervo.
Marc Ferrez – Fotografias de Marc Ferrez, texto de Maria Inez Turazzi, Cosac & Naify Edições (telefone 11 255-8808), 122 páginas, R$ 41,00.

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