Kraw PenasPoty Lazzarotto: ‘‘Estou meio inflacionado em matéria de painéis’’Desde terça-feira passada o Guairinha conta com uma cortina corta-fogo, com 12 metros de comprimento por seis de altura, confeccionada em aço. A exemplo da outra, instalada há alguns anos no Guairão, esta transformou-se num amplo painel desenhado por Poty Lazzarotto. O artista autografou a obra no palco do teatro.
Com esta inauguração, o Centro Cultural Teatro Guaíra passa a contar com três trabalhos do mais famoso artista paranaense, somando-se a fachada do prédio, defronte à Praça Santos Andrade. Ele, porém, não toma essas encomendas como um tríptico, ou algo parecido. ‘‘Nunca associei a fachada em concreto com as cortinas’’, afirmou.
‘‘As cortinas são feitas em tom um tanto quanto mais jocoso, ao passo que lá de fora é tudo sério, é seco, é a história do teatro mesmo. Bertolt Brecht associado com as carrocinhas das polacas de Curitiba’’, disse Poty à Folha2.
Cenas dramáticas, algumas em exagero, dão o tom brincalhão na obra. Ficção e registros de espetáculos estão ali contidos, como a peça ‘‘O Vilão e a Perseguida’’. ‘‘Assisti quando era de colo’’, contou o autor. ‘‘Sempre gostei desse título, dessas histórias clássicas da mocinha seduzida pelo vilão. Ele a abandona com uns trapinhos. Você chorava só de ouvir’’.
Aos poucos, dramas como esse vão se acabando, junto de uma época talvez mais romântica e ingênua. Aqui e ali ainda restam pedaços desse tempo. ‘‘Faço uma Curitiba que realmente está desaparecendo. É um pouco a alma da cidade que desenho’’, comentou.
Estaria Poty tentando colocar nas cortinas a alma do teatro feito em Curitiba? Ele responde negativamente. O que criou ‘‘é um tanto despretensioso, tanto que é feito como se fosse em rascunhos de papel’’. Confessa ter se afastado um pouco dos espetáculos teatrais. A magia de Marcel Marceau foi mais forte e arrastou-o para o Guaíra; o mímico foi o único cartaz visto ultimamente.
A dedicação maior está para o ateliê, para as edições literárias que o notabilizaram há décadas como o maior ilustrador brasileiro. Mestres como Guimarães Rosa, Cândido de Carvalho e Machado de Assis carregam seus traços nas capas e páginas internas. ‘‘Estou chegando à conclusão, outra vez, que um livro ilustrado chama mais atenção do que um livro seco. Não estou afirmando, de jeito nenhum, que o texto não valha por si’’, explicou.
‘‘Estou meio inflacionado em matéria de painéis’’, continuou o artista. Foram muitos os painéis espalhados pela cidade, seja nos entalhes em madeira, concreto, azulejos. No atelier trabalha com os projetos editoriais. Fazer a cortina do Teatro Guaíra ‘‘foi um intermezzo entre um trabalho e outro’’.
Quer dizer que existe uma relação carinhosa com o Teatro Guaíra? Poty concorda. ‘‘Eu o acompanho desde o começo, desde que isto aqui era só um escritoriozinho do Meister (Rubens Meister, arquiteto que desenhou o complexo Teatro Guaíra). Aponta para o lado direito do auditório, tentando firmar a vista para o passado: ‘‘Era um barraquinho que, se não me engano, era neste canto aqui’’.

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