Zeca Corrêa Leite
Filha de um comerciante de secos e molhados, a pequena Mariza passava horas agarrada ao seu cobertorzinho olhando o entra-e-sai dos clientes, em Santa Cruz do Rio Pardo. Tudo se transformava em cor, alegria e beleza quando umas moças pintadas, usando roupas diferentes, algumas vezes de cabelos pintados apareciam no estabelecimento. Dorotéia, Divina, Edileuza: as prostitutas ganharam generoso espaço na exposição de esculturas ‘‘As Meninas’’, de Marina Zaccura Oliva, em cartaz nos jardins do Museu de Arte do Paraná, em Curitiba.
A artista que espalhou as enormes peças em resina e acrílico entre os canteiros do jardim, não vê essas mulheres como personagens distantes de sua vida. Elas estão adormecidas no escaninho do passado, e tomam seus lugares quando despertam. ‘‘Às vezes começo uma peça e é o nada; nunca sei o que vai sair dali. Acontece então o grande momento quando elas dizem ‘sou fulana’. Aí é uma maravilha, chego a conversar com elas’’, explica a escultora.
Nem todas são Divinas e Dorotéias. Tem a Efigênia, a Hortência, a Clarinha, a Donana. Esta, por sinal, é a parteira que trouxe a artista ao mundo. Era uma alemã que deveria pertencer a alguma associação humanitária. O que comentava-se era que fora designada a trabalhar em Santa Cruz do Rio Pardo. Alta e pesadona, Donana vinha com sua inseparável maleta, trazendo materiais cirúrgicos. Porém, a escultura reflete a visão infantil: uma mulher muito alta, carregando uma criança na bolsa.
Outras imagens multiplicam nas história: Efigênia, triste e iluminada, tem os cabelos crespos caindo no vazio da dor, com estrelas grandes e quietas mostrando o caminho da felicidade; Maria Stela é uma dama de tailleur, colar, brincos, bolsa e leque; Divina (calcinha cor-de-rosa e florzinhas vermelhas à morta) mira-se no espelho, esparramada no divã; Hortência é uma bailarina; Clarinha é a menina suspensa no balanço, num galho de árvore; e outra, sem nome e peralta, voa com a bicicleta sem segurar no guidão.
‘‘Essas personagens estão dentro de mim; de hora para outra começam a sair’’, diverte-se Marisa. São todas ordeiras, inofensivas, vindas de um tempo onde a magia filtrava a realidade. ‘‘Elas fazem parte de uma poética’’, diz. Mesmo Dorotéia, esculhambada no modo de sentar, despreocupada com a sandália caída do pé, exala simplicidade e pureza. É a sensação da mostra. ‘‘Vou fundar um fã-clube para ela aqui em Curitiba’’, prometeu sua criadora.Marcelo AlmeidaMarina Zaccura Oliva ao lado de uma da suas ‘‘meninas’’, que está em exposição no jardim do Museu de Arte do ParanáA escultora Marina Zaccura Oliva lembrou de imagens da infância para elaborar suas ‘‘meninas gigantes’’ que expõe no jardim do MAP
Tem a Efigênia,
a Clarinha, a Donana,
a Hortência

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