Imagens além da retina
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de agosto de 2002
Carina Paccola<BR>Reportagem Local 
Ensinar fotografia para cegos é o desafio encarado pela fotógrafa londrinense Fernanda Magalhães. Ela é professora de Fotografia no curso de especialização em Fotografia, e de graduação nos cursos de Artes e Desenho Industrial da Universidade Estadual de Londrina. E agora também dá aulas no Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos.
Desde maio, todas as quartas-feiras de manhã, ela se encontra com cerca de 20 alunos que são deficientes visuais. Nas primeiras aulas, apresentou-lhes textos do fotógrafo cego esloveno Evgen Bavcar, naturalizado francês. Foi o trabalho de Evgen quem inspirou Fernanda a montar o curso para os cegos. O projeto foi aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura de Londrina.
''Parece um paradoxo a relação entre a fotografia e um cego'', diz. A fotografia continua incentiva o mundo da aparência, a supervalorização da imagem, que acaba sendo mais importante que a realidade.
Por isso, ela não quer só ensinar fotografia, mas discutir a construção do olhar, do imaginário interno. Esta preocupação já está no instigante trabalho de Fernanda que mostra a representação da mulher gorda nua na fotografia, de 1997.
Fernanda ressalta que o imaginário está mais presente no universo dos cegos do que no dos videntes. ''Nós, que enxergamos, não somos estimulados a olhar nosso imaginário interno. Com eles, acontece o contrário, além de terem muita sensibilidade e concentração.''
A noção de espaço que é bastante desenvolvida pelos cegos ajuda na aprendizagem. No ensino das técnicas, eles aprendem a tomar distância do objeto a ser fotografado dependendo do enquadramento desejado.
As máquinas utilizadas no curso são descartáveis. Fernanda escolheu um modelo em que o botão do flash fica em pé quando é acionado e o disparador tem sinais em alto-relevo. Fernanda desmontou uma para eles manusearem.
Reveladas as fotos, Fernanda descreve para elas como saiu cada uma e faz as correções sobre luz, enquadramento e outras questões técnicas.
No início, a fotógrafa não tinha certeza se a idéia daria certo. Agora, ela avalia a experiência como ''superemocionante''. ''É um misto de emoção com alegria. Está sendo um grande aprendizado para mim também.''
Para os cegos, fotografar é vencer limites avalia Fernanda. Ela descobriu que, para o fotógrafo cego esloveno Evgen, a fotografia é uma forma de se comunicar com os que vêem. ''Os cegos vêem o mundo de uma outra forma, de um jeito que a gente jamais imagina.''
Os alunos de Fernanda têm entre 16 e 62 anos. Dois já nasceram cegos. Os outros perderam a visão por vários motivos. Eles já produziram até agora mais de 100 fotografias. Várias delas foram selecionadas pelo projeto O Brasil dos Meus Olhos, desenvolvido pela Fiat Automóveis (leia texto nesta página).


