São Paulo, 03 (AE) - Domingos Oliveira acaba de criar um novo personagem, o IP ou Idiota Plástico, aquele sujeito que diante de uma obra de arte contemporânea exclama: "Ficar pintando coisa nenhuma com tanta coisa bonita para pintar." O personagem não está num novo filme ou peça do dramaturgo e cineasta, mas foi criado sob encomenda para o livro "Imagem Escrita", no qual Domingos comenta a obra do artista plástico José Bechara e aproveita para falar da suspeição de embuste que paira sobre a arte contemporânea.
A discussão fictícia entre Domingos e o IP não poderia ser mais apropriada para estar no livro idealizado pela psicanalista Renata Salgado, que reúne textos e imagens de 11 pares de artistas plásticos e criadores das mais diversas áreas. Cada par de artistas divide meio a meio 16 páginas de "Imagem Escrita" (192 págs., R$ 78) editado pela Paz e Terra, que será lançado na segunda-feira, em São Paulo, no Museu de Arte Moderna
e sexta-feira no Rio, na Livraria Argumento.
Definindo-se como "curiosa" em seu envolvimento com as artes plásticas, a aceitação da arte contemporânea tornou-se uma das inquietações de Renata. "Não aguento mais ouvir que a arte contemporânea está em crise", comenta. "Interessa-me a questão da aceitação dessa arte que provoca mal-estar por não ter compromisso com um ideal estético, com o entendimento ou o didatismo."
Daí a idéia de juntar num volume imagens da criação de alguns entre os nossos melhores artistas plásticos acompanhadas de textos que não fossem acadêmicos. O artista plástico Leonilson e a dramaturga Clara Góes, Nuno Ramos e o ex-titã Arnaldo Antunes, Antônio Manoel e o poeta Bernardo Vilhena, Flávia Ribeiro e a cenógrafa Daniela Thomas são alguns dos pares que integram o volume.
A maioria dos convidados não pertence ao universo das artes plásticas. ¶ngelo Venosa e a jornalista Flora Sussekind, Daniel Senise e a poetisa Viviane Mosé, Arthur Barrio e o crítico Camilo Osório, Cafi e o jornalista Pedro Bial, Cildo Meirelles e o artista plástico Marco Velloso são os demais pares.
Renata ressalta a fundamental parceria de Marcus Gasparian, editor responsável pela Paz e Terra, para permitir a publicação. "Ele apostou no projeto e assumiu os custos da edição sem nenhum apoio das leis de incentivo, o que é sempre um risco, ainda maior em se tratando de um livro de arte." O volume contou com a finalização do artista gráfico Jair de Souza. "Sem essa dupla, o livro não seria publicado, pois eu tinha a idéia, mas nenhuma noção de como realizá-la," diz Renata.
A psicanalista foi responsável pelo convite aos artistas plásticos que, em sua grande maioria, escolheram seu parceiro de trabalho. "Cada dupla dividiu meio a meio as 16 páginas e ficou livre para criar", comenta Renata. "Na verdade, eu não tinha um objetivo definido: o texto podia evocar a obra ou comentar ou ainda fazer uma leitura particular."
Depois de ter conquistado os artistas para o seu projeto
Renata se deu conta do quanto seria difícil organizar todo aquele material - textos e fotos - que iam se acumulando sobre sua mesa. Aí entrou em cena Jair de Souza. "A primeira grande dificuldade era criar uma unidade para a publicação sem desrespeitar singularidades", comentou Souza.
Ele optou por criar 11 livros, independentes entre si, cada um com sua capa, encadernados num único volume. "A escolha de uma numeração para identificar cada livro, forneceu o elemento de unidade gráfica", diz. A segunda grande dificuldade apontada por Souza era conseguir ordenar graficamente textos e imagens sem causar ruído sobre a criação dos artistas. "Tinha que encontrar um caminho que respeitasse as especificidades de cada dupla, que respeitasse a tensão entre imagem e texto, sem deixar que a diagramação aparecesse mais que as imagens", afirmou. "E ele conseguiu; estou muito feliz com o resultado", afirmou Renata.
Souza não foi o único a trabalhar com apuro. "Quebrei a cabeça para fazer o texto", comentou Domingos. Amigo de longa data de Bechara, ele não pode recusar o convite. "Eu tinha suspeitas semelhantes às do IP e para fazer esse texto passei por uma aventura da qual saí reconciliado com a arte contemporânea."
Em seu texto, no qual ele, o IP e Bechara transformam-se em personagens, Domingos faz uma viagem fictícia ao ateliê do artista em São Cristóvão. Lá, Bechara criou os imensos painéis feitos de lona de caminhão e palha de aço. Ateliê e obras são algumas das muitas imagens do livro que tem tudo para agradar a iniciados e leigos.

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