Ilustres desconhecidos
Alguém aí se lembra de Archibald Joseph Cronin? Médico de formação, vocação tardia de literato, é o autor, entre outros livros, de Laços de Ternura, As Chaves do Reino, Cidadela, romances que durante os anos cinquenta, e início dos sessenta, venderam aos milhares, aos milhões, fazendo de Cronin um novo rico satisfeito e glorioso. Prestigiado e incensado em todo o mundo o escritor inglês, falecido em 1981, é hoje apenas a memória em sépia de um nome, alguma escassa bibliografia e a certeza bem nítida de que Archibald Joseph Cronin não é mais...
Alguém aí há de objetar que Cronin não está assim tão esquecido quanto se imagina e puxará da estante um daqueles velhos mas bem conservados volumes, com lombada gravada em ouro, a exibir, triunfante, algum título do autor. Se isto for verdade, guarde o volume, por gentileza, a sete chaves, leitor amigo, e reze para que Archibald Joseph Cronin seja reeditado com urgência pois nem na Inglaterra os editores o querem mais...
Somerset Maugham. Alguém aí dentre vós com menos de vinte e cinco, sabe se é de comer ou de beber? Foi, há não muito tempo, um dos escritores com maior audiência em todo o mundo, uma espécie de Sidney Sheldon, não fosse pecado inominável compará-lo a este autor. Maugham, ao menos, tinha um pouco de graça, fumos de discreta elegância, ao contrário de Sheldon, um mercadejador de vulgaridades. As narrativas do hoje quase obscuro escritor inglês fizeram história. Servidão Humana quem esquecer há de? Mildred - a prostituta para sempre respeitosa... Teve a sorte de ser bem transcrito ao cinema - Human Bondage se nunca foi um clássico literário, acabou sendo curiosamente um clássico da cinematografia.
Karl May. Na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, ainda deve existir a estante que o abrigava - a ele e às suas obras, quase completas, pois um novo título se sucedia a outro, grossos volumes, cartapácios inenarráveis. A coleção, jamais esquecerei, encadernada em ocre, era concorridíssima na seção de empréstimos. O menino se perguntava quem há de ler semelhantes livraços, de meio metro por dois? Ao que qualquer um mais à mão respondia de pronto - os milhões de leitores que a tapas disputam os livros de May, em todos os continentes. Disputavam, gentil leitor, disputavam...
Stephan Zweig, afora alguns esforços isolados, sobretudo no Brasil, com o concurso inclusive do cineasta catarino-paranaense Sylvio Back, além de Alberto Dines, é hoje apenas um nome mofando nas enciclopédias e o que é pior - em nem todas elas... Certo encontrar algumas que o ignorem. Best seller internacional, autor de biografias que vendiam feito pão quente, traduzido em dezenas de línguas, cadê o Zweig que estava aqui, agora há pouco? O quê? O gato comeu?...
Mas para ficar em nosso quintal exíguo, e, nele, em dois dos maiores escândalos em torno do tema que aqui se trata, impossível não lembrar (lembrar? Quem lembra?) de Malba Tahan e, pior, de Humberto de Campos. Um e outro eram, cada qual a seu tempo, imbatíveis campeões de vendas, os títulos se multiplicando nas livrarias e as editoras imprimindo, a carga máxima, dia e noite, velhos e novos livros dos dois, com sofreguidão.
E nem precisa ir muito longe - Érico Veríssimo, escritor delicado e profundo, houve um tempo em que vendeu, só no Brasil, mais, muito mais do que vende hoje, por exemplo, um João Ubaldo e um Cony juntos, sem contar as edições no exterior. O que foi feito do Érico, gente? Veríssimo que se divulga, e se divulga bem, só o muito nosso Luis Fernando, posto que o autor de O Tempo e o Vento não sustenta hoje nem a pálida idéia do que foi.
Vaidade das vaidades e tudo é vaidade, diz, senhor do enunciado mais frio, o poeta do Eclesiastes, este sim, eterno... Mas como é que era mesmo o nome dele? Ninguém lembra, só ralas, ralíssimas hipóteses biográficas debaixo do céu...





