Ilusionismo para matar
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
A mágica sempre foi um espetáculo de entretenimento onde cada espectador sabe que as imagens criadas pelo ilusionista não são reais, e mesmo assim, sente-se seduzido pelo que presencia. Ele se deixa enganar por não conceber que a mágica seja possível. É na ilusão que o espectador se encanta.
Nesse caso, a mágica sendo um exercício da ilusão, pode ser utilizada como arma de guerra e não apenas como mero entretenimento. Embora possa parecer absurdo, tal uso do ilusionismo faz parte da História.
Em meados do século 19, a França colocava em prática sua política de colonização da África, especialmente da Argélia. O controle total do território argelino era dificultado por revoltas inspiradas pelos marabus, guias espirituais mulçumanos. Dotados de poderes divinos e sobrenaturais, os marabus eram constantemente consultados pelas dezenas de clãs nativos se deviam ou não, segundo a vontade de Alá, expulsar o inimigo invasor os infiéis.
Para tentar resolver o problema, o imperador francês Napoleão III colocou em prática uma mirabolante estratégia militar: convocou o mais famoso ilusionista da época para se apresentar em solo africano como se fosse um santo europeu. O objetivo da artimanha era convencer os árabes que a França possuia guias espirituais mais poderosos. Instalando o medo nas mentes dos guerreiros árabes, a ocupação do território se daria sem grandes empecilhos. O ilusionismo seria utilizado como arma de guerra para derrubar a fé islâmica.
Esse bizarro episódio histórico é retomado pelo escritor irlandês Brian Moore em seu último livro, A Mulher do Mágico. Baseado em fatos reais, o autor constrói um sedutor romance histórico em que a fé e a farsa são instrumentos de guerra.
A história é narrada pelos olhos da jovem esposa do mágico, Emmeline, que acompanha o marido Henri Lambert em seu desafio de iludir os argelinos. Esse olhar feminino, tumultuado por um jogo de amor e seduzido pela cultura do inimigo, é o grande componente da obra.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, A Mulher do Mágico é dividido em duas partes. Na primeira, transcorrida em 1856, retrata Henri Lambert e Emmeline percorrendo os jantares festivos oferecidos pelo imperador na tentativa de convencer o mágico a aceitar a difícil missão. Mulher simples e interiorana, Emmeline entra em contato com um universo desconhecido, o aristocrático, e sofre profundas transformações. Cortejada pelo coronel Deniau, o militar que acompanhará o casal na Argélia, nasce um triângulo amoroso subjetivo que permeará a história.
A outra parte do romance, transcorrida entre 1856 e 1857, retrata a estadia de Henri e Emmeline na África. O ilusionista apresenta seu show sobrenatural aos marabus e guerreiros árabes e mostra, por exemplo, seu poder de retirar a força de qualquer homem. A mágica que mais impressiona o público é a de sua imortalidade. A artimanha é simples. Com uma pistola adulterada solicita à alguém da platéia que lhe dê um tiro. Sai ileso a bala sai de alguma parte de seu corpo.
Quando os guerreiros estão quase convencidos da superioridade divina do invasor, a um passo do objetivo da missão, os problemas começam a aparecer. Numa das demonstrações públicas, um nativo resolve utilizar sua própria pistola na apresentação, não a adulterada. Como mestre em seu ofício, Henri consegue contornar a situação e sair vencedor.
Embora vencedor, Henri deixa a África completamente derrotado. Com inteligência, o autor revela um percurso trágico da vida do mágico, uma existência de ilusões. Mas o grande peso de A Mulher do Mágico está na trajetória de Emmeline em sua lenta transformação como mulher, consciente de si mesma, do mundo e do jogo dos homens.
Falecido recentemente, Brian Moore nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1921. Imigrou para a América em 1948, vivendo no Canadá e Estados Unidos. Autor de vinte romances entre os mais conhecidos destacam-se Mentiras do Silêncio e A Cor do Sangue Moore chegou a escrever roteiros para Hollywood, um deles filmado por Alfred Hitchcock, Cortina Rasgada.
Sem estardalhaço da mídia, criou uma literatura de maturidade exemplar. A Mulher do Mágico é uma ótimo exemplo de seu trabalho. Brian Moore escreve como quem ergue uma construção, coloca tijolo por tijolo, telha por telha, de maneira que só no final, ao retocar a última argamassa, o leitor consegue ter a visão global de sua refinada arquitetura.
A Mulher do Mágico de Brian Moore, Editora Companhia das Letras, tradução de Anna Olga de Barros Barreto, 230 páginas, R$ 25,50.





