Como exercício da ilusão, a mágica tanto pode ser utilizada como entretenimento quanto como instrumento de poder. Utilizar o ilusionismo para criar determinada realidade, ou como arma de guerra, parece ser algo comum. Ao longo da História, são vários os episódios onde a ilusão foi utilizada como estratégia de batalha.
Um desses episódios históricos mais exemplares aconteceu no século 19, quando a França colocava em prática sua política de colonização da África. O controle do território africano pelo governo francês era dificultado por constantes revoltas inspiradas pelos chamados marabus, guias espirituais mulçumanos dotados de poderes sobrenaturais. Eles eram religiosamente consultados pelas dezenas de clãs se deviam ou não, segundo a vontade de deus, expulsar o inimigo invasor.
Para tentar resolver o problema, o imperador francês colocou em prática uma mirabolante estratégia militar: convocou o mais famoso mágico da época para se apresentar em solo africano. Não como um artista ilusionista, mas como um santo dotado de poderes divinos. O objetivo da artimanha era convencer os árabes que o colonizador possuía guias espirituais mais poderosos que os islâmicos. Nada mais do que instalar medo na alma dos guerreiros para ocupar o território sem grandes empecilhos.
Esse curioso episódio histórico foi resgatado pelo escritor irlandês Brian Moore em ''A Mulher do Mágico'', publicado pela Companhia das Letras. Baseado em fatos reais, o autor criou um romance histórico em que a fé e a farsa aparecem como instrumentos de dominação.
A história é narrada pelos olhos da jovem esposa do mágico, Emmeline, que acompanha o marido Henri Lambert em seu desafio de iludir os argelinos. Esse olhar feminino, tumultuado por um jogo de sedução pela cultura do inimigo, é o grande destaque da obra.
Em solo africano, o ilusionista na companhia da esposa apresenta seu ''show sobrenatural'' aos guerreiros árabes. O número de maior impacto é o da imortalidade. A artimanha é simples: com uma pistola adulterada ele solicita a alguém da platéia que lhe dê um tiro.
Quando os guerreiros estão quase convencidos da superioridade divina do invasor, os problemas começam a aparecer. Numa das demonstrações públicas do mágico, um nativo resolve utilizar sua própria pistola na apresentação, não a adulterada. Como mestre em seu ofício, Henri consegue contornar a situação e sair vitorioso.
Apesar do sucesso de sua missão em solo africano, o mágico retorna para a Europa com uma pesada sensação de fracasso. Brian Moore revela sua trajetória trágica, uma existência pautada pelas ilusões. Mas o grande foco de ''A Mulher do Mágico'' está na trajetória de Emmeline em sua lenta transformação como mulher, consciente de si mesmo, do mundo e do jogo dos homens.
Falecido em 1991, Brian Moore nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1921. Emigrou para a América em 1948, vivendo no Canadá e Estados Unidos. Autor de mais de vinte romances, escreveu vários roteiros cinematográficos, entre eles ''Cortina Rasgada'', filmado por Alfred Hitchcock.
Serviço:
- A Mulher do Mágico
Autor - Brian Moore
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Anna Olga de Barros Barreto
Quanto - R$ 53,50 (230 págs.)

Nesse momento, Majestade, toda a Argélia está sob o domínio de um certo Bou-Aziz, um marabu carismático que surgiu no Sul e a quem são atribuídos poderes miraculosos. Devido à influência do marabu, caso ele declare uma guerra santa, os árabes acreditarão que Deus está do lado deles e que, se houver luta, eles nos derrotarão. Eu sugeri que, se pudermos levar monsieur Lambert à Argélia e providenciarmos para que ele se apresente numa série de espetáculos para platéias nativas, talvez possamos convencê-los de que não é apenas o islã que possui poderes miraculosos. Em outras palavras, nós o apresentaremos como um marabu maior do que Bou-Aziz e os convenceremos de que Deus não está do lado deles, mas no nosso.
(Fragmento de ''A Mulher do Mágico'' de Brian Moore)

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