ILUMINAÇÕES MÓRBIDAS
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de julho de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Ele é o filho do carbono e do amoníaco, monstro de escuridão e rutilância. É aquele que ficou sozinho, cantando sobre os ossos do caminho a poesia de tudo quanto é morto.
Augusto dos Anjos (1884-1914), o autor dos mais festejados versos mórbidos da literatura brasileira, volta a despertar góticos e leitores em geral com a reedição simultânea de dois preciosos títulos: a obra Eu e Outras Poesias (Bertrand Brasil) e a coletânea Melhores Poemas (Global).
A coincidência nos lançamentos favorece a redescoberta do poeta, um tanto esquecido pelos cadernos culturais da imprensa e até pelos estudiosos acadêmicos. Morto jovem, aos 30 anos, só obteve glória póstuma. Seu poder de penetração popular continua incontestável.
Houve época em que estudantes de 2º grau sabiam seus poemas de cor recitando-os com pompa e humor em mesas de bar. Não havia um que não conhecesse o trecho final de Versos Íntimos: Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro,/ A mão que afaga é a mesma que apedreja. / Se a alguém causa inda pena a tua chaga,/ Apedreja essa mão vil que te afaga, / Escarra nessa boca que te beija!.
O fato de Eu e Outras Poesias chegar à 43ª edição apenas revela o vasto contingente de leitores conquistado ao longo de décadas pelo poeta. Nem a cômica terminologia científica adotada em seus versos, incomum em poesia, foi capaz de espantar a audiência, provocando mais estímulo do que aversão.
Otto Maria Carpeaux creditou o fascínio às metáforas de decomposição que Augusto dos Anjos tão bem manejava, rivalizando em perícia com o domínio dos decassílabos, dos quais foi mestre. Terror dos críticos, o poeta permanece um enigma para os que tentam aproximar-se com fichas classificatórias.
Se não chegou a tempo para tomar o bonde modernista, tampouco pode ser vinculado ao parnasianismo ou ao simbolismo. Quando lançou Eu em 1912, com as despesas de publicação custeadas por um irmão, mal foi notado pela crítica e pelo público. Foi só a partir da terceira edição, em 1928, que o título logrou iniciar a trajetória de sucesso.
Na revisão que chega agora às prateleiras, o organizador passou borracha sobre 278 erros que persistiram nas versões anteriores, além de acrescentar mais 5 sonetos não incluídos na última edição Lago Encantado, O Beijo Maldito, À Memória de meu Colega Caldas Lima, Este Soneto e Anseios.
A novidade foi escavada pelo biógrafo Raimundo Magalhães Júnior em jornais paraibanos, nos quais o poeta do hediondo (como ele se auto-intitulava) rabiscou seus primeiros versos. Carlos Drummond de Andrade e Otto Maria Carpeaux reaparecem com seus textos elogiosos, respectivamente na contracapa e na orelha do volume.
Li o Eu na adolescência e foi como se levasse um soco na cara escreve o primeiro. Lendo e relendo o Eu, sempre descobrimos coisas novas, estranhas e admiráveis anota o segundo. A obra foi encorpada com 11 dedicatórias, dois subtítulos, duas epígrafes, uma cronologia histórica, fac-símiles (de capas, páginas de rosto e do contrato para a primeira publicação do livro) e a reprodução dos textos de Antônio Houaiss, Orris Soares e Francisco Assis Barbosa.
Incluiu-se também uma entrevista com o poeta feita pelo médico Lucínio Santos, que no início do século 20 distribuiu um questionário para músicos, escritores e artistas com o intuito de publicar a pesquisa no livro A Loucura dos Intelectuais. Ao ser indagado sobre o que sente quando está produzindo, Augusto dos Anjos responde: uma série indescritível de fenômenos nervosos, acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar.
O outro título que sai dos fornos nesta temporada não traz nenhum texto que não esteja em Eu e Outras Poesias, mas tem o mérito de ser organizado por José Paulo Paes (1926-1998), que assina a introdução e uma biobibliografia. Augusto dos Anjos Melhores Poemas está na terceira edição (a primeira é de 1985) e reúne 58 sonetos, entre os quais O Lamento das Coisas, Viagem de um Vencido e Versos a um Coveiro. Os góticos agradecem.
Eu e Outras Poesias 43ª edição, 293 páginas. Editora Bertrand Brasil, telefone (21) 263-2082.
Augusto dos Anjos Melhores Poemas 3ª edição, 208 páginas. Editora Global, telefone (11) 327-77999.


