Ilha no Pacífico inspira clássico da literatura
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terça-feira, 07 de setembro de 2004
Paulo Pinheiro<br> Agência Estado 
Juan Fernandez - Um paraíso perdido no sul do Oceano Pacífico guarda verdadeiros tesouros para quem gosta de aventuras, histórias, mistérios, natureza e, ainda por cima, quer fugir das grandes cidades: a Ilha Robinson Crusoe. Cenário de um dos maiores clássicos da literatura, ela não fica no Caribe, como se supõe ao ler o livro do novelista inglês Daniel Defoe (1660-1731). Está localizada no Arquipélago Juan Fernandez, a 677 quilômetros de Valparaíso, cidade da costa chilena. E não é fácil chegar lá. São duas horas e meia de vôo, saindo de Santiago, num bimotor de 20 lugares.
No desembarque, um jipe está à espera. Apenas para despachar as malas. É preciso caminhar por volta de 40 minutos, por uma estrada de terra batida, até a Baía do Padre, onde um barco da Municipalidade de Juan Fernandez, nome do descobridor do arquipélago, leva o visitante ao único povoado daquelas paragens, o de San Juan Baptista.
O barco contorna a costa. No início, a paisagem é a de uma ilha vulcânica. Morros áridos e chapadões de rochas. Os penhascos retos, com mais de 300 metros de altura, caem dentro do mar e as enseadas, onde os lobos-marinhos de dois pêlos se banham, vão sucedendo-se. Só na meia hora final da viagem é que a paisagem se modifica: surge o verde rasteiro no alto das montanhas.
Depois de uma hora e meia, já na Baía de Cumberland, avista-se a vegetação alta dos bosques e as primeiras casas dos moradores. Chega-se ao povoado de San Juan Baptista, com 629 habitantes, a maioria descendente dos primeiros colonizadores.
Assim como a ilha, boa parte da história que inspirou Daniel Defoe a escrever o romance sobre o heróico náufrago também é verdadeira e tem por base o exílio de Alexander Selkirk. Ele foi deixado por lá após discutir com o capitão do navio Cinque Ports, Thomas Stradling, sobre o rumo que a embarcação deveria tomar. Na realidade, o desentendimento entre Selkirk e Stradling começou bem antes, na costa do Brasil. O Cinque Ports havia deixado o porto de Kinsale, na Inglaterra, acompanhado do navio St. George. Ambos com um documento que autorizava as embarcações a capturar e saquear navios inimigos, principalmente franceses e espanhóis.
Selkirk era contramestre do Cinque Ports, navio que Charles Pickering capitaneava, tendo como primeiro-tenente Stradling. Assim como no romance de Defoe, o navio aportou no Brasil e aqui morreu Charles Pickering. Thomas Stradling assumiu o posto de capitão. Mas Selkirk não se dava bem com o novo capitão. Em setembro de 1704, após violenta discussão com o marinheiro, Stradling obrigou Selkirk a desembarcar na ilha, apesar dos apelos deste para que não fosse deixado sozinho e das promessas de que voltaria a cumprir as ordens do capitão.
Não houve perdão. Selkirk foi abandonado com uma Bíblia, um facão, uma corda, um mosquetão, um pouco de pólvora e sua caixa de roupas. Há controvérsias sobre o local exato em que o marinheiro desembarcou. Alguns registros afirmam que foi em Porto Inglês, onde até hoje há uma pequena caverna, que consta como primeiro abrigo do escocês e que pode ser visitada. Mas há versões entre os ilhéus de que Selkirk foi deixado no Porto dos Franceses.
Como o personagem de Defoe, Selkirk, em sua luta pela sobrevivência, também descobriu um bosque na Grande Baía. E, idêntico ao herói do livro, ele construiu uma cabana no local e passou a contar com duas residências: uma na praia e outra na Grande Baia onde, após um longo período de adaptação, conseguiu viver rodeado de gatos e cabras domesticados. As cabras seriam os principais fornecedores de roupas e alimentos para sua sobrevivência.
Durante a permanência na ilha, Selkirk costumava observar o mar de um mirante localizado no alto do monte Portezuelo, na esperança de enxergar um navio inglês que pudesse resgatá-lo. Até hoje pode-se visitar o local. Quando via navios que considerava inimigos, como galeões franceses ou espanhóis, o escocês corria para se esconder nos bosques e nas cavernas.
Mas foi de sua cabana que, no dia 30 de janeiro de 1709, Selkirk avistou um navio de madeira com velas brancas. Outra embarcação surgiu. Tratavam-se dos galeões Duke e Duchess. O piloto do galeão Duke era o inglês William Dampier, ex-comandante do St. George, quando Selkirk foi abandonado na ilha. Embora fosse considerado exímio piloto, Dampier havia perdido a rota da ilha e ido até Valparaíso, na costa do Chile. Encontrou a rota novamente porque o capitão do Duke, Woodes Rogers, insistiu em ir para a ilha.
Ao ver os navios, Selkirk acendeu uma fogueira na praia. Mas Rogers acreditou que pudessem ser inimigos e não quis se aproximar. Selkirk correu para o mirante e viu os navios ao longe. Suas esperanças evaporaram-se novamente. Só na tarde do dia seguinte, viu um escaler aproximar-se da ilha. Acenou uma bandeira com pano branco.
Assim que os marinheiros desembarcaram, só reconheceram o escocês como um ser humano por causa das pernas. Selkirk, que tinha estatura mediana e forte, estava barbudo, cabeludo e vestido com roupas feitas com couro de cabra. Estava começando o resgate e o fim de um exílio de quatro anos e quatro meses de um homem sozinho numa ilha.
A aventura de Selkirk só veio a público anos depois, após sua volta à Inglaterra, com a citação do caso nos livros dos capitães Cook e Rogers. Sua história foi depois publicada no jornal ''The Englishman''. Foi essa publicação que mais tarde inspirou Daniel Defoe a escrever ''A Vida'' e ''Estranhas e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoe, de York, Marinheiro''. Selkirk morreu alguns anos depois, numa viagem ao Equador.
Segundo os registros e os próprios ilhéus, Selkirk jamais se encontrou com o personagem Sexta-Feira. Esse personagem corresponderia a um índio misquito, natural da região da Nicarágua, que havia sido resgatado por uma embarcação inglesa dez anos antes de Selkirk, na mesma ilha. A imaginação de Daniel Defoe, porém, tratou de juntar as histórias dos dois náufragos.


