O orgulho da raça triunfa, há mais de duas décadas, no Carnaval de rua de Salvador. Bastião da pureza étnica e musical, o bloco Ilê Aiyê foi o primeiro grupo baiano a abordar a questão negra na festa, realçando-a nas letras das músicas, no uso dos tambores, nos motivos visuais afro e na própria opção de só desfilar com componentes negros.
Matriz do que se convencionou chamar de ‘‘axé music’’, o Ilê Aiyê está lançando o CD 25 Anos (Natasha Records), uma coletânea de suas músicas de Carnaval. O disco foi produzido por Arto Lindsay, o brasileiro radicado nos Estados Unidos que circula entre a vanguarda pop nova-iorquina. Paula Lavigne, mulher de Caetano Veloso, assina a produção artística com Connie Lopes.
Milton Nascimento e a cantora Daúde fazem participações especiais. Com 14 faixas, o álbum compila composições que ficaram conhecidas através de outras vozes como ‘‘Adeus Bye Bye’’ (primeiro sucesso da Banda Eva), ‘‘Negrume da Noite’’ (cantada por Margareth Menezes e Virgínia Rodrigues), ‘‘O Mais Belo dos Belos’’ (hit de Daniela Mercury) e ‘‘Ilê Aiy꒒ (rebatizada de ‘‘Que Bloco é Esse?’’, mas já gravada por Gilberto Gil e pelo Rappa).
O repertório revela a coerência e, dependendo do ponto de vista, um certo conservadorismo do Ilê. Fiel ao arranjos exclusivos para vozes e percussão, o bloco resistiu a mudanças diferenciando-se de seus similares afro baianos (todos filhos de Ilê), que enxertaram teclados e apelos radiofônicos à crueza da rítmica regional.
Opôs-se também, pelo contraste, à utilização pop que os trios elétricos e seus cantores fazem de material afro. ‘‘É no Ilê que eu encontro os meus amigos /e desarmo os inimigos’’, diz a letra de ‘‘Estação Azeviche’’, trazendo Zumbi dos Palmares para a folia.

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