IGUARIA PARA O ESPÍRITO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
É complicado discutir ética, quando o assunto é política dos grandes estúdios. Modos e maneiras comerciais enviezados, no trato do filme enquanto produto-objeto de compra e venda mercantil, sempre foram a marca registrada da agressividade capitalista made in Hollywood. Por essas e outras, o dístico Ars Gratia Artis a arte pela arte a emoldurar Leo, o legendário leão da Metro, nunca foi mesmo levado a sério. E também por isso, não deixa de causar espanto a reação de uma parcela da imprensa diante da indicação de Chocolate para concorrer aos Oscar-2001, mais precisamente aos prêmios de melhor filme, melhor atriz, atriz coadjuvante, roteiro adaptado e trilha musical.
Há muito já globalizados e globalizantes, os irmãos-produtores Bob e Harvey Weinstein leia-se Miramax vêm sistematicamente, na última década, implantando um império cinematográfico. Do mecenato aos independentes às grandes produções internacionais, a dupla sempre jogou pesado. E não foi diferente em Chocolate, com dinheiro grosso correndo solto por conta da ampla visibilidade no circo mediático. E agora o melhor da festa: o filme é realmente bom, e merece estar nesta lista eclética entre gladiadores, traficantes e lutadores de artes marciais.
É tão saboroso quanto o título, mas por toda sua sensualidade o filme está muito mais relacionado com o espírito. Fábula de enganosa simplicidade, adaptada com sabedoria e madura habilidade por um jovem roteirista, Robert Nelson Jacobs, a partir de novela homônima de Joanne Harris, Chocolate se coloca na melhor tradição humanista do cinema clássico francês. Não por acaso o argumento se situa geograficamente na França, e o diretor seja um europeu, o sueco Lasse Hallstrom, que parece ter herdado do grande Jean Renoir o dom de lidar sutil e paralelamente com a debilidade e a força interior das pessoas.
Num gelado dia de 1959 bem poderia ser 1859, nesta imutável cidade francesa uma bela mulher, Vianne Rocher (Juliette Binoche, naturalmente arrebatadora) e sua pequena filha, Anouk ( Victoire Thevisol, a atriz-revelação do polêmico Ponette), chegam a uma pequena vila no interior francês. A mulher aluga uma vazia e empoeirada pastelaria de uma vizinha, Armande (Judi Dench), e com muita disposição transforma o local em simpática loja de chocolates. Os habitantes logo são atraídos, se encantam e passam ao consumo das iguarias, mas o todo-poderoso conde de Reynaud (Alfred Molina), que manda na cidade como seus antepassados mandavam, logo enxerga em Vianne uma inimiga. Especialmente porque os chocolates que ela prepara parecem possuir extraordinárias propriedades, capazes tanto de curar enfermidadades como de restaurar paixões desgastadas.
Vianne é uma mulher de fato sagaz e misteriosa, e justamente quando o espectador começa a desconfiar que algo sinistro se passa com ela e com as receitas, a perspectiva de Chocolate se amplia e se aprofunda. Os mistérios, na verdade, são aqueles no coração das pessoas. O argumento trabalha com eficiência subtemas como puritanismo e religiosidade, hipocrisia e jogos de poder, violência contra a mulher e paixões à flor da pele. Chocolate funciona tanto como entretenimento com boa dose de comicidade como peça para reflexão. Neste sentido, é uma espécie de comédia humana em forma de conto de fadas, um trabalho de alto nível, sofisticado em concepção e execução embora irradiando amplo apelo. O elenco é uma coleção de jóias, a começar pela deusa Binoche. Johnny Depp é uma nota destoante entre solos afinados de Lena Olin, John Wood, Alfred Molina e a veterana Leslie Caron como a plantadora de cacau.


