Divulgação/Arquivo FolhaDenise Stoklos declamou o poema de Rafael Greca (detalhe) na abertura dos Jogos Mundiais da Natureza: performance repete-se hojeNum dia agitado de governo e representantes dos sem-terras, entre uma reunião e outra com os líderes do movimento, o então secretário da Casa Civil, Rafael Greca de Macedo, trancou num escaninho a tensão de negociações, e de outro deixou fluir a beleza do Rio Iguaçu, suas águas caudalosas e seculares, as quedas de sua gigantesca foz, as lendas dos indígenas. Daí surgiu o ‘‘Poema ao Rio Iguaçu’’ que, traduzido nos gestos de Denise Stoklos, abriu os Jogos Mundiais da Natureza, em Foz do Iguaçu.
O livro contendo o poema será lançado hoje, às sete da noite, no Memorial de Curitiba. Para quem não esteve na solenidade e perdeu a emocionante apresentação de Denise tem hoje, talvez, a única oportunidade de fazê-lo. A mímica está na cidade especialmente para a performance. Rafael Greca disse ontem à Folha2 que ao compor o texto, imaginava a presença de Denise.
‘‘Foi para ela que escrevi. E ela deu muito valor ao poema, fez uma extraordinária interpretação’’, afirmou. Os originais chegaram até as mãos da artista em Edimburg, onde cumpria temporada. ‘‘Estava na Escócia quando li o poema pela primeira vez. Senti uma emoção genuína. O texto tem um sotaque paranaense que eu reconheço dentro de mim’’, diria mais tarde a moça saída de Irati.
Greca, em suas andanças pelo interior, descobriu através de moradores de Irati que Denise Stoklos é filha de um homem que foi dono um cinema em tempos passados. Seu relato:
- Ele fazia promoções culturais em tempos pioneiros do cinema. Por exemplo: fazia sessões três em um. A pessoa pagava um ingresso e podia ver três filmes. Fazia também sessões de cinema perfumadas. Quando os filmes eram românticos, ele borrifava da cabine de projeção, perfumes sobre as pessoas. Então a pessoa que é filha de um homem que fazia sessão de cinema com perfume, no mínimo tem que virar uma artista dessa competência.
A decisão de se abrir os Jogos Mundiais da Natureza com palavra e música foi tomada durante uma reunião em que estavam reunidas várias pessoas. Com receio do óbvio e do kitsh, Rafael Greca tomou como princípio uma frase de Heráclito, que tão bem sintetiza a existência em direção à eternidade, e a ela acrescentou o rio que o fascina desde menino.
‘‘Você pode olhar diversas vezes um mesmo rio:/ nunca é a mesma a água que você v꒒. Esses versos que direcionam a obra repetem-se por mais duas vezes ao longo do poema. ‘‘Nenhuma metáfora é melhor para a nossa vida do que um rio. É a preferida quando a gente vai pensar no suceder dos dias da nossa vida’’, comenta Greca.
‘‘Nascemos numa fonte de água cristalina, depois nos tornamos mais caudalosos e vamos em direção à nossa foz. O desafio é que façamos essa travessia da vida vida sem conhecer a impureza e contaminação e sejamos dignos da pureza ou imensidão do mar da eternidade’’.
Depois de ser cantado em sua foz, o poema terá nova leitura na sua nascente, observou Rafael Greca, sobre o evento desta noite no Memorial da Cidade. A ligação dele com o Iguaçu vai além das letras. Quando prefeito de Curitiba desenvolveu ações de preservação dos mananciais. Promoveu uma expedição documentada por ambientalistas, cuja finalidade era a de percorrer os quase mil quilômetros de extensão, e abriu na Casa Vermelha uma belíssima exposição mostrando os diferentes aspectos do rio.
Percebe-se por aí que o amor ao Iguaçu vem de um tempo muito mais antigo que o da encomenda para jogos internacionais. ‘‘É preciso ter olhos para o mundo que está ao nosso redor’’, atenta o autor. ‘‘Esse foi o princípio da escritura do poema. E de certa forma é também um repouso para as minhas luta de político. Quando se escreve um poema a gente se reconcilia com a nossa humanidade que às vezes se avilta, se fere no processo político. É uma pausa’’, conclui.

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