Um neto pergunta o que é ídolo, digo que pode ser ídolo de barro, desses que o tempo esfarela, como podem ser exemplos de sentido de vida.
Esopo, o escravo que não sabia escrever, depois de morto teve suas fábulas recontadas de memória, até serem reunidas e transcritas três séculos depois de sua morte. O escravo sábio personifica nossa capacidade de superar limitações.

Imagem ilustrativa da imagem Ídolos
| Foto: Reprodução



Ghandi, líder da independência da Índia, surpreendeu a Inglaterra, então um império mundial, com sua estratégia de desobediência civil contra poder militar, usando a não-violência como arma e o exemplo de vida como bandeira. A eficácia de sua estratégica e a perspicácia de suas táticas podem ser avaliadas quando de sua estadia em Londres, como convidado do governo inglês, então pressionado pelo mundo para discutir a independência indiana. Em vez de aceitar hospedagem oficial, Ghandi ficou na casa de conterrâneo, indo a pé todo dia para os encontros oficiais - de manto, cajado e sandálias, seguido por multidão crescente de jornalistas, transformando cada caminhada num misto de passeata e entrevista coletiva andante. Quando o governo inglês percebeu, estava acuado e perdido diante daquele homenzinho, símbolo de evolução das lutas humanas.

Santos Dumont, outro baixinho franzino, encarnou a paixão pela vocação e a entrega do ser à sociedade. Menino, contrariando o pai, montou e soltou grande balão na fazenda. O pai, maior cafeicultor então do país, ralhou com o filho, a chama de um balão caído podia provocar incêndio. Não, pai, explicou o menino já inventor, fiz uma chama que se apaga antes do balão cair.

Há quem ainda discuta se foi ele ou foram os irmãos Wright os inventores do avião. Aconteceu que distantemente inventaram ao mesmo tempo duas versões de avião: o de Santos, baseado na leveza, e o dos Wright, baseado na potência. Mas só ele doou aos seus mecânicos e aos ourives de Paris, para resgatarem suas ferramentas penhoradas, o prêmio que ganhou por circundar de balão a Torre Eiffel. E só ele arriscou a vida tantas vezes com tanta graça e elegância, além de abrir mão das patentes de todas suas descobertas, enquanto para isso torrava a herança deixada pelo pai. Seu segundo avião, o Demoiselle - aí no alto da coluna - simboliza seu casamento de ciência com beleza.

Agora um médium famoso frequenta os noticiários com suas façanhas sexuais, então lembremos de Chico Xavier. Psicografador de mais de 400 livros, que venderam mais de 50 milhões de exemplares, nunca pegou um tostão, sempre doando tudo para entidades assistenciais, a quem destinava também toda doação pessoal que recebia. Vivendo modestamente, nunca faltou a um dia de serviço como datilógrafo do Ministério da Agricultura até se aposentar. Moço ainda, ia pescar com amigos, que um dia estranharam Chico nunca pegar nenhum peixe, e foram ver, ele não usava isca, explicando que não ia pescar por isso, mas só para estar com eles... Essa historinha é uma pérola do sentido de vida desse homem extraordinário.

Mas nada extraordinária parecia ser a merendeira do meu grupo escolar, num tempo em que a merenda ainda podia ser apenas sagu, arroz doce ou gelatina, e como era bom! Mas alguns meninos entojados deixavam sua merenda intocada ou pela metade, então a merendeira recolhia e distribuía entre os pobrezinhos que esperavam esperançosos, e eles comiam agradecendo com os olhos.
Em casa, contei a minha mãe, perguntando porque a merendeira fazia aquilo. Porque é uma pessoa boa, ela respondeu, como podia ter respondido: é para dar mais sentido a sua própria vida.

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