Ranulfo Pedreiro
De Londrina
A música instrumental brasileira está construindo seu próprio caminho. Sem confrontar a grande indústria do disco, produtores e instrumentistas que vêem nas composições algo mais do que um produto de mercado estão abrindo brechas, cavando espaços e ganhando credibilidade. ‘‘Quinteto’’ – disco recém-lançado pela flautista Léa Freire e o saxofonista Teco Cardoso – demonstra que a opção de formar segmento próprio para a música instrumental está dando resultados.
‘‘Quinteto’’ é uma reunião de amigos que virou disco. Léa e Teco estudaram juntos na década de 70 e seguiram caminhos diferentes. O reencontro ocorreu há uns dois anos, durante os shows do primeiro disco solo de Teco Cardoso, ‘‘Meu Brasil’’, vencedor do Prêmio Sharp de música instrumental em 1998.
O saxofonista foi para os Estados Unidos fazer algumas apresentações – acompanhado por Benjamin Taubkin no piano, Sylvio Mazzuca Jr. no baixo e AC Dal Farra na bateria –, e convidou Léa. Surgia o quinteto que em pouco tempo selecionou repertório e, com apenas alguns shows realizados, optou pela gravação.
Os músicos se apresentaram no Blue Note, em Nova York – um dos selos mais importantes do jazz –, em setembro de 1998 e, dois dias depois, gravaram no Kampo Studios, também em Nova York. O resultado foi mixado em São Francisco e masterizado em São Paulo em agosto de 1999. Como todo o grupo se conhece há tempos, houve uma identidade musical que aboliu ensaios mais prolongados. O álbum foi gravado apenas em uma tarde, ao vivo no estúdio.
‘‘Quinteto’’ foi lançado pelo Núcleo Contemporâneo, um selo montado por Teco Cardoso, Benjamin Taubkin e Mané Silveira para abrigar propostas não-comerciais. O repertório traz seis composições de Léa Freire, uma de Benjamin Taubkin e outra de Duke Ellington.
‘‘Eu peguei uma sessão de estúdio para gravar algumas músicas e em uma tarde fizemos o disco todo. Nós queríamos buscar essa energia de interação e ousadia com o clima ao vivo’’, comenta Teco Cardoso, em entrevista por telefone à Folha2.
‘‘Sorriso do Gordo’’ (Léa Freire) abre o disco com um samba instrumental de contornos melódicos descontraídos e bons solos de flauta e piano. A introdução já evidencia a integração do grupo, com percussão, harmonia e melodia trabalhando com segurança, evitando confrontos.
O ambiente informal apresenta momentos de melancolia em ‘‘Risco’’ (Léa Freire), com apoio do piano sutil de Bejamin Taubkin. Trabalhado quase como uma jam session, ‘‘Quinteto’’ traz as vantagens de uma gravação ao vivo: concentração e emotividade dosadas e distribuídas em cada acorde. Como o trabalho foi realizado em estúdio, não há ruídos, problemas com regulagem de som ou solistas que derrapam no excesso de entusiasmo. O álbum traz ainda uma versão de ‘‘In a Sentimental Mood‘‘ (Duke Ellington/Mills/Kurtz).
‘‘É uma formação muito feliz, a gente sobe ao palco para se divertir, fazer uma música que a gente gosta. É uma energia que a gente conseguiu captar no disco, um trabalho vivo que tem detalhes a serem descobertos’’, completa Cardoso.
A proposta resume a linha do Núcleo Contemporâneo, um selo que está mostrando o interesse diversificado pela música instrumental ou pelo cancioneiro sem vínculos com o mercado. ‘‘Nós queríamos provar o contrário do que se dizia, que a música instrumental no Brasil não tem público. A gente percebe que tem pessoas ávidas por uma música com sensibilidade, é um público que já existe e pode ser ampliado. Geralmente só uma face da música brasileira é divulgada, justamente aquela que vende muito. Nós queremos um produto cultural, ligado ao país e a sua história’’, ressalta. Quem procurar alternativas em ‘‘Quinteto’’ encontrará boas respostas. Os contatos com o Núcleo Contemporâneo podem ser feitos pelo telefone (11) 3873-1386, ou no site www.nucleo.art.br.O saxofonista Teco Cardoso e a flautista Léa Freire mostram cumplicidade em ‘Quinteto’, disco instrumental lançado pelo Núcleo Contemporâneo
ReproduçãoTeco Cardoso e Léa Freire gravaram o disco em apenas uma tarde, com clima de jam session em Nova York

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