ReproduçãoCatálogo e anúncio em revista da Brastemp, por Ana Carmen Longobardi e Mauro PerezArquiteto como muitos que partem para a fotografia, Arnaldo Pappalardo, fotógrafo já consagrado no mundo da publicidade, começou a sentir-se inquieto em seu processo criativo. Os anúncios publicados e as imagens nas paredes já não o satisfaziam. Criou, então, algumas instalações, mas, ainda assim, continuava faltando algo.
Foi quando ele pensou em realizar projetos editoriais, que lhe dariam a oportunidade de acompanhar todas as etapas do processo, da fotografia ao planejamento gráfico, passando pelo texto e pela impressão, a fim de criar uma unicidade de conceitos. Dessa idéia nasceu a Editora Camaleão e o primeiro trabalho foi um livro de bolso, Arnaldo Pappalardo, com uma coletânea de 51 fotos feitas nos últimos dez anos.
A idéia do livro nasceu quando Pappalardo se deu conta de que seu portfólio estava na mesma pasta havia 12 anos: ‘‘O portfólio é o meio que temos de divulgar nosso trabalho’’, explica. ‘‘Em geral, são provas de fotolito e eu gostava muito da minha pasta, mas ela já estava despencando’’. Por outro lado, a prova de fotolito nunca é a foto do fotógrafo, é o anúncio já pronto, com toda a interferência do trabalho publicitário.

ReproduçãoAnúncio da Swatch em revista, por Ana Carmen Longobardi e Mauro PerezOcorre que nem sempre essa é a forma adequada de exibir uma imagem. O processo de criação do fotógrafo confunde-se com a mensagem publicitária. ‘‘No início, cheguei a alterar essa apresentação, distanciando um pouco a imagem do anúncio e apresentando-a de forma bruta: tirei o texto, em seguida imprimi-o de outra forma, fiz o corte que considerava correto, além de apresentar as fotografias que não foram escolhidas para o anúncio’’.
Em geral, trata-se de sutilezas. Nesse processo, porém, Pappalardo não se esqueceu de que a autoria da imagem não é apenas dele. O estímulo para produzi-la veio de fora, da agência de publicidade. ‘‘O conceito não é meu, por isso coloquei todos os créditos nas imagens’’.
Nem sempre o fotógrafo pode interferir numa imagem. Muitas vezes, a concepção da foto já chega pronta e a criação é zero. Pappalardo não considera isso um problema. ‘‘São formas diferentes de trabalhar; cada tipo de fotografia tem suas características e, quando uma imagem chega pronta, minha função é transformar aquela idéia em fotografia’’, esclarece. Assim, sua contribuição é quase exclusivamente técnica. Há campanhas publicitárias, no entanto, em que o fotógrafo participa de todo o processo de preparação, o que, para ele, é o ideal. ‘‘Para esse meu livro, selecionei anúncios dos quais participei ativamente na elaboração de todas as imagens’’.

ReproduçãoAnúncio de 1996, de Cláudia Issa e Ruy Branquinho, da DPZApesar de muito importante para Pappalardo, esse trabalho lhe trazia uma grande dose de insatisfação: na maioria das vezes, suas imagens não eram publicadas exatamente da maneira como gostaria, nem mesmo nos catálogos fotográficos.
Pensou, então, em criar a própria editora para que, além das fotos, pudesse também cuidar dos projetos gráficos: ‘‘A imagem é um elemento muito delicado, tudo o que está ao seu redor interfere e é preciso assumir a responsabilidade da interferência’’, diz. ‘‘O livro de bolso, na realidade, é a primeira experiência nesse sentido: fiz todo o projeto, até o design’’. Outro motivo que o levou a criar uma editora foi a falta de oportunidade de expor seu trabalho nas galerias e, ao mesmo tempo, a vontade de publicá-lo. ‘‘Acredito na utilidade da imagem e não só na expressão artística’’, admite. ‘‘Acredito na fotografia aplicada a alguma coisa’’.

ReproduçãoAgência Intermarket, 1990/1997Além desse livro, um projeto em andamento é a criação de uma revista com o mesmo nome da editora, Camaleão, uma brincadeira que mostra o lado mutante dos projetos. ‘‘Essa revista vai ser como os antigos almanaques, ou seja, vai ter fotografia, reportagens sobre jardinagem, sobre culinária’’. Pappalardo estuda uma maneira específica para tratar cada ensaio, além de tentar equacionar a relação texto-imagem. A idéia é lançá-la no primeiro semestre. Não se trata de revista de fotografia, mas de uma publicação, com tiragem limitada, destinada a um público sofisticado.
‘‘É óbvio que a revista vai ser um portfólio meu, seja como fotógrafo, seja como designer gráfico’’, adianta. ‘‘Muitas imagens já existem, vou retrabalhá-las e, de alguma forma, vou procurar abordar a fotografia de um jeito diferente da idéia inicial, vou transformar as imagens’’.
Arnaldo Pappalardo consegue, com esse trabalho da editora, realizar um sonho que pode ser comum a muitos fotógrafos: o de ver a própria obra tratada e publicada da forma como seus autores fariam. ‘‘Não faço editorial porque dão pouco espaço ou porque nem sempre publicam a foto da melhor forma possível’’, conta Pappalardo. ‘‘A interferência na imagem é muito grande, por isso prefiro a fotografia publicitária; e acredito que, quando você vai dar seu depoimento pessoal sobre determinado assunto, você não pode ter interferências’’.
É por isso que ele está criando a publicação. ‘‘Meus grandes parceiros serão uma gráfica e um produtor gráfico; é um sonho meu, de encontrar uma alternativa para divulgar meus ensaios desvinculado das exposições fotográficas nas galerias’’.

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