IDÉIAS CONTEMPORÂNEAS
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de setembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Eles já foram aclamados e rechaçados em igual proporção. Com exceção de uma ou outra ausência, constituem a nata do pensamento francês contemporâneo pertencendo à geração que sucedeu a Sartre e os existencialistas.
No Brasil, suas idéias permanecem mal digeridas embora contem com entusiastas em várias universidades. Agora, num sopro de atualização editorial, a Estação Liberdade lança quase de uma só vez novos títulos de Jean Baudrillard (Cool Memories III), Jean-François Lyotard (Peregrinações), Paul Virilio (Estratégia da Decepção) e Jacques Derrida (O Olho da Universidade).
Derrida ainda comparece como organizador da coletânea de textos Religião. De todos, Baudrillard talvez seja o mais conhecido por aqui, nem tanto por suas reflexões mas por suas constantes visitas para palestras e respectivas coberturas pela imprensa. Certa vez, numa de suas vindas, definiu o Brasil como a clorofila planetária.
Sofista para alguns, genial para outros, Baudrillard parece cada vez mais abandonar a postura de sociólogo e adotar a persona de escritor. No terceiro volume da série Cool Memories III, ele divaga sobre diversos assuntos em mais uma coleção de aforismos, alguns cortantes e outros meros jogos de palavras.
É preciso não ser sério e aparentá-lo. Ou então ser sério e não o aparentar. Os que conjugam o aparentar e o ser sério, esses são insignificantes escreve numa passagem. A chance de o cidadão formular uma opinião a partir da informação é tão nula quanto a de formular um julgamento estético a partir do mercado de arte anota ele mais adiante.
Infelizmente assinala logo depois a idiotice típica de nossa época não se diferencia mais da inteligência. Confunde-se com ela. Não é mais inculta; ao contrário, é superinformada, possui a mesma vivacidade reflexa da inteligência artificial. É o grau Xerox da estupidez que se confunde com o grau Xerox da inteligência.
Baudrillard alterna pilhérias, obscuridades e observações sutis ao longo das páginas. Se no começo da década, carregou o fardo de pensador do simulacro título que ele sempre rejeitou , coube a Jean-François Lyotard projetar-se também involuntariamente e no mesmo período como o filósofo da pós-modernidade.
Lyotard, a exemplo de companheiros de jornada, colocou em xeque a fé na razão, que tinha como consequência uma crença desmedida na técnica e no progresso. Na pós-modernidade, tais forças já não seriam suficientes para explicar o mundo e o homem. Lyotard morreu há dois anos, condenado pela mídia a ser o mentor de um conceito só.
Mas em Peregrinações, ele escapa da pecha deixando um importante testemunho literário, ético, estético e político de sua trajetória. O livro é a transcrição de três conferências que ele fez na Wellek Library Lectures da Universidade da Califórnia, em Irvine, nas quais falou sobre o ato de escrever e do que entendia por teoria crítica.
O resultado é um esboço de autobiografia intelectual cujo último capítulo narra a amizade e o rompimento com Pierre François Souyri, teórico marxista com quem o autor conviveu intensamente durante a fase de militância política entre os anos 50 e 60 quando ambos atuavam no grupo que editava a revista Socialismo ou Barbárie.
Também presente na fornada de títulos, o analista das tecnologias Paul Virilio mantém o espírito combativo em Estratégia da Decepção, onde ataca a interferência dos Estados Unidos na guerra dos Balcãs. Sua mira volta-se para as novas formas de dominação, que substituem os conflitos propriamente militares pelo controle da informação.
Jacques Derrida, por sua vez, castiga eventuais leitores com dois textos áridos em O Olho da Universidade. Considerado o mais importante filósofo francês vivo, ele é o sobrevivente de uma safra de intelectuais que ditou moda na filosofia, ciências humanas e crítica literária entre os anos 60 e 80 e da qual fizeram parte gente como Roland Barthes, Michel Foucault e Louis Althusser.
Derrida é o papa da desconstrução, polêmico conceito usado para minar a metafísica, disciplina fundamental da filosofia cujo objeto é a conceitualização do ser e sua apreensão pela razão. Autor de obras célebres como Gramotologia e A Escritura e a Diferença, ele apregoava que as idéias de verdade e razão seriam estratégias de uma civilização repressiva, etnocêntrica e antifeminina.
Expert em torcer o cérebro dos leitores, Derrida é co-organizador da coletânea A Religião ao lado de Gianni Vattimo. O livro examina o que se convencionou chamar de o retorno do religioso, incluindo explanações de Hans-Georg Gadamer, Maurizio Ferraris, Aldo Gargani, Eugenio Trías e Vincenzo Vitiello. Os textos são transcrições de um seminário realizado na ilha de Capri, na Itália, em 1994.
Por que é tão difícil pensar esse fenômeno? pergunta o filósofo. Por que é surpreendente? Por que deixa atônitos em particular aqueles que acreditavam ingenuamente que uma alternativa opunha, de um lado, a Religião e, do outro, a Razão, as Luzes, a Ciência, a Crítica (a crítica marxista, a genealogia nietzcheana, a psicanálise freudiana e respectivas heranças), como se a existência de uma estivesse condicionada ao desaparecimento da outra?.
Aos interessados, façam a feira na livraria mais próxima.


