Eles já foram aclamados e rechaçados em igual proporção. Com exceção de uma ou outra ausência, constituem a nata do pensamento francês contemporâneo pertencendo à geração que sucedeu a Sartre e os existencialistas.
No Brasil, suas idéias permanecem mal digeridas embora contem com entusiastas em várias universidades. Agora, num sopro de atualização editorial, a Estação Liberdade lança quase de uma só vez novos títulos de Jean Baudrillard (‘‘Cool Memories III’’), Jean-François Lyotard (‘‘Peregrinações’’), Paul Virilio (‘‘Estratégia da Decepção’’) e Jacques Derrida (‘‘O Olho da Universidade’’).
Derrida ainda comparece como organizador da coletânea de textos ‘‘Religião’’. De todos, Baudrillard talvez seja o mais conhecido por aqui, nem tanto por suas reflexões mas por suas constantes visitas para palestras e respectivas coberturas pela imprensa. Certa vez, numa de suas vindas, definiu o Brasil como a ‘‘clorofila planetária’’.
Sofista para alguns, genial para outros, Baudrillard parece cada vez mais abandonar a postura de sociólogo e adotar a persona de escritor. No terceiro volume da série ‘‘Cool Memories III’’, ele divaga sobre diversos assuntos em mais uma coleção de aforismos, alguns cortantes e outros meros jogos de palavras.
‘‘É preciso não ser sério e aparentá-lo. Ou então ser sério e não o aparentar. Os que conjugam o aparentar e o ser sério, esses são insignificantes’’ – escreve numa passagem. ‘‘A chance de o cidadão formular uma opinião a partir da informação é tão nula quanto a de formular um julgamento estético a partir do mercado de arte’’ – anota ele mais adiante.
‘‘Infelizmente’’ – assinala logo depois – ‘‘a idiotice típica de nossa época não se diferencia mais da inteligência. Confunde-se com ela. Não é mais inculta; ao contrário, é superinformada, possui a mesma vivacidade reflexa da inteligência artificial. É o grau Xerox da estupidez que se confunde com o grau Xerox da inteligência’’.
Baudrillard alterna pilhérias, obscuridades e observações sutis ao longo das páginas. Se no começo da década, carregou o fardo de ‘‘pensador do simulacro’’ – título que ele sempre rejeitou –, coube a Jean-François Lyotard projetar-se – também involuntariamente e no mesmo período – como o ‘‘filósofo da pós-modernidade’’.
Lyotard, a exemplo de companheiros de jornada, colocou em xeque a fé na razão, que tinha como consequência uma crença desmedida na técnica e no progresso. Na pós-modernidade, tais forças já não seriam suficientes para explicar o mundo e o homem. Lyotard morreu há dois anos, condenado pela mídia a ser o mentor de um conceito só.
Mas em ‘‘Peregrinações’’, ele escapa da pecha deixando um importante testemunho literário, ético, estético e político de sua trajetória. O livro é a transcrição de três conferências que ele fez na Wellek Library Lectures da Universidade da Califórnia, em Irvine, nas quais falou sobre o ato de escrever e do que entendia por teoria crítica.
O resultado é um esboço de autobiografia intelectual cujo último capítulo narra a amizade e o rompimento com Pierre François Souyri, teórico marxista com quem o autor conviveu intensamente durante a fase de militância política entre os anos 50 e 60 quando ambos atuavam no grupo que editava a revista ‘‘Socialismo ou Barbárie’’.
Também presente na fornada de títulos, o analista das tecnologias Paul Virilio mantém o espírito combativo em ‘‘Estratégia da Decepção’’, onde ataca a interferência dos Estados Unidos na guerra dos Balcãs. Sua mira volta-se para as novas formas de dominação, que substituem os conflitos propriamente militares pelo controle da informação.
Jacques Derrida, por sua vez, castiga eventuais leitores com dois textos áridos em ‘‘O Olho da Universidade’’. Considerado o mais importante filósofo francês vivo, ele é o sobrevivente de uma safra de intelectuais que ditou moda na filosofia, ciências humanas e crítica literária entre os anos 60 e 80 e da qual fizeram parte gente como Roland Barthes, Michel Foucault e Louis Althusser.
Derrida é o papa da desconstrução, polêmico conceito usado para minar a metafísica, disciplina fundamental da filosofia cujo objeto é a conceitualização do ser e sua apreensão pela razão. Autor de obras célebres como ‘‘Gramotologia’’ e ‘‘A Escritura e a Diferença’’, ele apregoava que as idéias de verdade e razão seriam estratégias de uma civilização repressiva, etnocêntrica e antifeminina.
Expert em torcer o cérebro dos leitores, Derrida é co-organizador da coletânea ‘‘A Religião’’ ao lado de Gianni Vattimo. O livro examina o que se convencionou chamar de ‘‘o retorno do religioso’’, incluindo explanações de Hans-Georg Gadamer, Maurizio Ferraris, Aldo Gargani, Eugenio Trías e Vincenzo Vitiello. Os textos são transcrições de um seminário realizado na ilha de Capri, na Itália, em 1994.
‘‘Por que é tão difícil pensar esse fenômeno?’’ – pergunta o filósofo. ‘‘Por que é surpreendente? Por que deixa atônitos em particular aqueles que acreditavam ingenuamente que uma alternativa opunha, de um lado, a Religião e, do outro, a Razão, as Luzes, a Ciência, a Crítica (a crítica marxista, a genealogia nietzcheana, a psicanálise freudiana e respectivas heranças), como se a existência de uma estivesse condicionada ao desaparecimento da outra?’’.
Aos interessados, façam a feira na livraria mais próxima.

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