IDÉIAS À PROVA DE FOGO
Rodrigo Garcia
Agência Estado
Digno representante do Renascimento, Giordano Bruno foi padre, cientista, místico, filósofo, poeta, astrônomo, autor de peças de teatro e, principalmente, um grande pensador. Por pensar diferente da Igreja Católica ele afirmava que Deus estava em todos os seres da natureza e que a Terra girava em torno do Sol, por exemplo Bruno foi queimado numa fogueira pela Inquisição numa praça de Roma. Hoje o mundo inteiro vai celebrar o aniversário de 400 anos de execução desse homem que se tornou símbolo da luta pela liberdade de pensamento e de expressão.
Giordano Bruno nasceu em Nola, pequena cidade italiana perto de Nápoles, em 1548. Seu pai, o militar João Bruno, batizou o filho com o nome de Felipe. Aos 17 anos ele se tornou frade dominicano no Mosteiro de São Domingos, em Nápoles, e passou a chamar-se Giordano. Dez anos depois, em 1575, Bruno recebeu o título de doutor em teologia, dando início a uma brilhante carreira acadêmica.
Bruno foi muito influenciado pelo filósofo grego Platão e pelo pensador egípcio Hermes Trimegisto, bastante popular entre os eruditos do Renascimento. Entre tantas idéias, o pensador italiano defendia que o Universo era um sistema ilimitado em eterna transformação. Não existem fins, termos, margens, muralhas que nos defraudem e roubem a infinita abundância das coisas, afirmava. Portanto, a Terra não estava no centro do Universo. Para ele, no homem encontra-se o reflexo da plenitude e Deus não é o criador do Universo, mas o próprio Universo. Suas idéias influenciaram filósofos que viveram muitos anos depois, como o holandês Baruch Spinoza e o alemão Gottfried Leibniz.
Essas teses iam contra o pensamento dominante da época, o da Igreja Católica. Bruno foi forçado a abandonar a ordem dos dominicanos em 1575 e passou a lecionar em várias universidades da Europa: na Suíça (Genebra), na França (Paris), na Inglaterra (Londres e Oxford), na Alemanha (Frankfurt, Wittenberg e Helmstadt) e na República Tcheca (Praga). Bruno se aproximou do calvinismo e do luteranismo, mas também foi excomungado dessas duas religiões.
Nos intervalos das aulas, Bruno escreveu alguns de seus principais livros: Despacho da Besta Triunfante, A Ceia das Cinzas, As Sombras das Idéias, Cabala do Cavalo Pégaso e a sua obra-prima, Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos.
Em suas temporadas nesses centros de estudo, Bruno conquistava admiradores, mas também grandes inimigos. Ele se queixava: Se eu manejasse um arado, pastoreasse um rebanho, cultivasse uma horta, remendasse uma veste, ninguém me daria atenção, poucos me observariam, raras pessoas me censurariam e eu poderia facilmente agradar a todos. Mas, por ser eu delineador do campo da natureza, por estar preocupado com o alimento da alma, interessado pela cultura do espírito e dedicado à atividade do intelecto, eis que os visados me ameaçam, os observados me assaltam, os atingidos me mordem, os desmascarados me devoram. E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos.
No ano de 1591, o nobre veneziano Giovanni Mocenigo convidou Bruno para voltar à Itália e dar-lhe aulas de técnica de memorização, assunto sobre o qual o filósofo tinha realizado pesquisas. Confiando nas garantias de proteção dadas por Mocenigo, Bruno foi para Veneza. Mas seu aluno, insatisfeito com os resultados obtidos nas aulas, prendeu o filósofo e o entregou às autoridades eclesiásticas.
Bruno foi transferido para Roma em 1593, onde durante sete anos foi julgado por heresia e blasfêmia. Quando ouviu sua sentença de morte, Bruno declarou aos juízes: Tendes mais medo em proferir a sentença contra mim do que eu em recebê-la.
Giordano Bruno foi queimado vivo em 17 de fevereiro de 1600 no Campo dei Fiori (Campo das Flores), no centro de Roma, onde no século 19 foi erguida uma estátua do filósofo.
Quatrocentos anos após a execução de Bruno, suas idéias continuam a provocar debates em universidades e em instituições religiosas. Mas ele nunca foi perdoado pela Igreja. No começo do mês, o cardeal Paul Poupard disse que a Inquisição estava errada em executar Giordano Bruno, mas certa em rejeitar suas heresias.Há 400 anos Giordano Bruno foi queimado vivo por pensar diferente da Igreja Católica, mas ainda hoje seu raciocínio suscita debates
Arquivo FolhaA intolerância da Igreja se revelava nos autos da Inquisição, onde as fogueiras serviam para purificar as almasArquivo FolhaGiordano Bruno enxergava Deus não como criador do universo, mas como o próprio universo





