Tom Zé disse em uma entrevista à esta Folha 2, que endereça seu trabalho a um público jovem, de 13 a 22 anos, porque, segundo ele, esta é a fase em que as pessoas ainda acreditam que é possível mudar o mundo acompanhando a ética neste processo. Seu alvo, o público jovem, teria maior capacidade de promover as transformações, porque certos valores ainda não são um peso a carregar às costas. O poeta Paulo Leminski dizia que, até mais ou menos os vinte e cinco anos, todo mundo é poeta, mas que dificilmente sustentam a vocação depois desta idade.
É verdade que, chega um determinado período da vida em que os caminhos vão se estreitando para quem quer viver plenamente a expressão da liberdade, porque vem responsabilidades e a pressão social começa a pesar por todos os lados. Emprego, especializações, dinheiro para sobreviver. A cobrança é forte, e só sendo mais forte ainda, é possível resistir a um mundo que nos condena a endurecer nossa sensibilidade. Contra a gente mesmo. Por isso é preciso agir com coragem - ‘‘cour age’’ - ou seja, agir com o coração.
No campo específico da arte e do conhecimento, há uma ilusão que precisa ser enfrentada por aqueles que possuem no sangue o desejo da expressão. Trata-se de entender que a fama, o sucesso e a fortuna não são causas, mas consequências que podem acontecer, ou não, para quem trabalha com arte. O que não modifica em absoluto a expressão individual. Muita gente, depois de muito se esforçar naquilo que acredita ser um trabalho sério, que mereceria visibilidade, acaba tentando vender a alma ao demônio, procurando fazer um trabalho ‘‘comercial’’, mas que, na verdade, também não vende e não tem nada a dizer para as outras pessoas.
Outra coisa que é cobrada sempre é a maturidade do artista para que seu trabalho tenha algum valor. Claro, uma mente infantil vai não vai produzir uma obra que valha a pena, mas daí a ter que esperar o tempo passar para mostrar o que se tem já é demais. Aprender que a gente não deve procurar fazer as coisas para ser reconhecido, mas - em arte, pelo menos - para que o outro se reconheça nela, é um amadurecimento de quem não precisa se dobrar para dar continuidade a seu trabalho. Se aquilo que o artista faz encontra ressonância na sensibilidade de outras pessoas, então o processo de seu trabalho foi concluído. Agora, o quanto vai ressoar, o quanto vai ser reconhecido, não depende mais do seu trabalho, mas de todo um circuito que ele já não detém mais controle.
O cantor e compositor Chico César disse em uma entrevista que não adianta querer estar em um lugar que não é seu, que não lhe pertence. Quando se chega lá (leia-se fama), lá já é outro lugar. ‘‘O melhor lugar do mundo é aqui e agora’’, já ensinava Gilberto Gil em seu período zen, há mais de vinte anos. Por outro lado, o compositor Guilherme de Brito, também entrevistado pela Folha 2, só agora, aos 80 anos, está lançando seu primeiro trabalho comercial com suas músicas. Parceiro de Nelson Cavaquinho, a juventude ainda continua a persistir neste homem que continuou criando sua obra apesar da falta de oportunidades de divulgação. Aliás, idade não é parâmetro para a qualidade da criação artística. Assim como muitos começaram a criar depois dos quarenta, outros, como Rimbaud aos dezoito, já fizeram sua revolução. Noel Rosa, morreu aos 26, deixando mais de 300 composições. Picasso, Michelangelo já encantavam as pessoas com suas habilidades desde crianças.
O fato é que um sonho não envelhece e nem é preciso ser velho para tê-lo, para mantê-lo. Mesmo que a injustiça nos impeça de apreciar muitas obras de arte - que poderiam mudar nossa vida, ampliar nossa cultura -, uma renovada força nos impele ao ato criativo. E é essa inquietude a fonte da eterna juventude.
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