Ibrahim Ferrer cobra sua "escalação" no Heineken Concerts; músico cubano pode cantar na Oscar19/Mar, 14:28 Por Jotabê Medeiros São Paulo, 19 (AE) - Ibrahim Ferrer, de 72 anos, um dos veteranos músicos cubanos do documentário "Buena Vista Social Club", de Wim Wenders, telefonou na semana passada para a produção do Heineken Concerts (festival que começa no início do mês de abril) e disse: "Mas então vocês levam os cubanos para tocar aí e não me convidam?", intimou o cantor. Não deu outra: apesar de o foco do show cubano da noite do dia 8, na Tom Brasil ser a novíssima música cubana - com o pianista Ernán López-Nussa & Quarteto, a cantora Haydée Milanés e o percussionista Tata Guines -, o veterano cantor também deverá estar no palco, por sua absoluta e generosa vontade. Ferrer é agora uma celebridade internacional - foi um dos apresentadores da entrega dos prêmios Grammy, em Los Angeles e pode cantar na abertura do Oscar. Na sexta-feira, só faltava o OK do seu empresário. "Para mim não será um fato novo, já que nós compartilhamos o palco habitualmente aqui em Havana", disse o pianista Ernán López-Nussa, em entrevista por telefone à Agência Estado, de Cuba. O jazzista López-Nussa, de 40 anos, é considerado uma das maiores revelações da música cubana atual. Toca Schumann e Debussy com a mesma desenvoltura e elegância com que toca o standard "Blue Bossa" transformado em rumba cubana. "Trabalhei muitas vezes com Tata Guines e Ibrahim Ferrer", ele diz, acrescentando que é admirador do talento da jovem Haydée Milanés, filha de Pablo Milanés, de apenas 19 anos, que o acompanhará. "Ela tem fibra, além de uma grande virtude, que é a educação musical", afirmou o pianista. Ele está preparando um espetáculo no qual usa a voz como instrumento, "de uma maneira muito mais ampla do que apenas cantar canções" afirmou. Ele contou que a música brasileira chegou até ele por intermédio de Chico Buarque e Edu Lobo e disse que a MPB, mesmo quando tem alguma diluição, como a de Sérgio Mendes, tem grandes qualidades. "O Brasil é uma potência musical e eu diria que, de cada dez músicos, nove e meio são muito bons", afirma. Redescoberta - Já o cantor Ibrahim Ferrer acabou se tornando a surpresa da noite. 'Redescoberto' pelo guitarrista Ry Cooder no projeto Buena Vista Social Club, chegou a engraxar sapatos na rua para sobreviver e hoje é um dos convidados para cantar também na cerimônia do Oscar. A vida nem sempre foi generosa para com esse cubano de Santiago. Quando perdeu a mãe, aos 13 anos, Ferrer teve de fazer bicos para sobreviver. Quando Cuba perdeu o rumo, nos anos 60, ele voltou a engraxar sapatos na rua. Ex-crooner da orquestra de Beny Moré, em 1958, talento reconhecido no passado, Ibrahim Ferrer trabalhava duro na rua para ganhar US$ 15 mensais. "Para mim, a coisa mais importante era não estar parado, além do que engraxar sapatos era tudo o que eu sabia fazer", disse. "Não há desonra no trabalho", afirmou Ferrer, em entrevista no ano passado. A vida começou a mudar para Ibrahim Ferrer em 1996, quando o guitarrista americano Ry Cooder foi a Cuba para reunir uma geração de notáveis músicos cubanos da primeira metade do século em um disco também memorável: "Buena Vista Social Club". O disco também originou o premiado documentário homônimo dirigido pelo alemão Wim Wenders (de Paris, Texas). Os notáveis eram, além de Ibrahim Ferrer, os fantásticos Rúben Gonzalez, Compay Segundo, Elíadez Ochoa e Omara Portuondo, entre outros. A co-produção foi do cubano Juan de Marcos Gonzalez. "Buena Vista Social Club" ganhou um Grammy e "revelou" os cubanos mundo afora. Ibrahim é um dos destaques. Mas, como nunca tinha gravado um disco em toda a sua carreira, Ry Cooder se ofereceu para produzir sua estréia-solo, "Ibrahim Ferrer". Rúben Gonzalez, Compay Segundo, Generoso Jimenez e Ibrahim Ferrer representam uma geração que dificilmente será igualada na música cubana - e jamais será superada. "A invasão da salsa e de outros ritmos fez com os jovens se esquecessem cedo demais o que um dia foi a música cubana", lembrou. "Poucos chegarão a ela e alguns não chegarão nunca, porque se esqueceram da música: se esqueceram da sua Cuba".