Ibope mínimo e inteligência máxima
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sábado, 28 de março de 2009
Mauro Trindade<br> TV Press 
Há uma lenda antiga sobre a televisão. Dizem que, quando foi inventada, os cientistas vibraram com o sucesso de sua criação, mas logo em seguida descobriram que não sabiam o que fazer com ela. Na falta do que exibir, passaram então a transmitir concertos, notícias e peças de teatro. E, logo em seguida, vieram os programas de auditório e as telenovelas, que continuam no ar até hoje no ar. Audiência é a palavra de ordem.
''Arte com Sérgio Britto'', que a TV Brasil apresenta às terças-feiras à noite, dá outro sentido à radiodifusão. Só conquista um solitário ponto no ibope. Mas não dá qualquer espaço à vulgaridade, ao popularesco, à exploração da desgraça e da intimidade alheia que ocupam grande parte da emissoras de televisão aberta. Mesmo dentro de um canal estatal, cuja sobrevivência dos programas não depende do número de espectadores, sua presença é notável pela inteligência e pelo apuro na escolha do que é e do que não é apresentado.
Sérgio Britto não transmite notícias. Indica sentido, oferece interpretação. Nada é simplesmente mostrado, como acontece na maioria dos noticiários, mas refletido por um ator e diretor de 85 anos que observa o mundo da arte com ponderação e generosidade.
É um programa que não faz concessões. E com ele podemos saber como é uma peça de Buchner, um livro de Tomasz Lychowski, uma música do Quinteto Violado, um solo de Guinga ou uma montagem da Companhia do Pequeno Gesto. O apresentador não está lá muito preocupado se quem assiste o programa sabe que são estes grupos e artistas. Se não, melhor ainda, porque vai conhecer.
''Arte com Sérgio Britto'' ainda tem a vantagem de estar de olho em tudo que está em cartaz no momento, como os filmes ''Café dos Maestros'' e ''Milk'', por exemplo, sempre vistos e comentados com uma profundidade que explicita a rasura dos telejornais convencionais, nos quais a notícia se sobrepõe à reflexão.
Ainda mais antiga que a televisão, há uma ideia de que certos assuntos devem ser simplificados para que a população em geral possa compreendê-los de forma mais clara. O que é apenas elitismo disfarçado de democrática boa vontade. Certas coisas são irredutíveis e precisam ser exibidas em sua integridade. No alto de seu pontinho no ibope, Sérgio Britto insiste com elas.
- Arte com Sérgio Britto - TV Brasil, Terça, 22h. Reprise nas sextas, às 0:10h


