Fazer rir nunca foi o forte de Bete Coelho. De formação teatral, ela ganhou o rótulo de atriz dramática ao encenar espetáculos de diretores como José Celso Martinez Corrêa e Gerald Thomas. Nas poucas vezes que trocou o teatro pela tevê, repetiu sua sina em autênticos dramalhões como ''Éramos Seis'', do SBT, e ''Serras Azuis'', da Band. A única vez que se aventurou pela comédia foi em 1991, quando interpretou a divertida Jezebel em ''Vamp'', da Globo. A idéia de escalar Bete para fazer humor em ''As Filhas da Mãe'' partiu do diretor Jorge Fernando. ''No meio dessa avalanche de comediantes, ele acreditou que eu poderia viver a Alessandra. Não tenho o timing da comédia, mas o texto ajuda muito. Não tenho de fazer gracinhas para o personagem ficar engraçado'', esclarece a atriz.
Aos 38 anos, Bete já se sente mais à vontade para fazer comédia do que quando estreou na tevê. As recordações que guarda de ''Vamp'', inclusive, não são das melhores. Até hoje, Bete treme ao lembrar do primeiro dia de gravação, quando se sentiu ''um legítimo ET''. ''Deu tudo errado naquele dia. Se pudesse, saía correndo na mesma hora'', recorda. A atriz só não cumpriu a ameaça porque foi impedida pelo diretor Jorge Fernando. Paciente, ele pediu que Bete pensasse menos e se divertisse mais. ''Bete, vamos tirar um pouco desse ar intelectual da cara. Não pensa, Bete, não pensa'', sugeriu ele, em tom jocoso.
Toda e qualquer apreensão em voltar a fazer novelas se dissipou quando a atriz soube que teria de viajar para a Itália. Lá, ela gravou as primeiras cenas de Alessandra, a caçula da família Cavalcante, em plena Fontana de Trevi, o mesmo chafariz em que Anita Ekberg exibiu a exuberante silhueta no filme ''A Doce Vida'', de Federico Fellini. ''Nunca fui tão mimada na vida'', diz. Em Roma, Jorge escolheu um dia bem ensolarado para gravar a cena. O famoso chafariz, lembra Bete, estava apinhado de turistas. ''Quando eu começar a berrar aqui, vão pensar que sou louca. Vou acabar presa'', temia. Por via das dúvidas, o diretor usou de sua habitual discrição para deixar bem claro que todo aquele fuzuê tratava-se da gravação de uma novela. ''O público acabou aplaudindo a cena'', conta a atriz.
Na trama de Sílvio de Abreu, Alessandra é uma escritora fracassada que nunca conseguiu publicar uma linha sequer. Mal-sucedida profissionalmente, ela não faz outra coisa senão trocar farpas com Tatiana, interpretada por Andréa Beltrão, e tentar desmascarar Ramona, vivida por Cláudia Raia. ''A personagem beira a loucura. Mas trata-se de uma loucura cômica, destrambelhada. A maldade dela é quase lúdica'', tenta explicar. A cada cena que grava, Bete admite que não poderia ter voltado às novelas em melhor ocasião. Bem-humorada, diz que já tem até uma resposta na ponta da língua para quando alguém lhe perguntar sobre o seu atual ''livro de cabeceira''. ''Nas últimas semanas, não tenho feito outra coisa senão ler capítulos de novela. Mas é legal. Insuportável é fazer o que não se gosta'', queixa-se.
Em dez anos de carreira na tevê, Bete não teve lá muitos momentos insuportáveis. Ao lado do diretor Nílton Travesso, ajudou a reinaugurar os núcleos de dramaturgia no SBT em 97 e na Band em 99. Na emissora de Sílvio Santos, atuou em ''Éramos Seis'' e ''Sangue do Meu Sangue''. A experiência só não foi melhor porque ela se viu obrigada a participar de alguns ''teleteatros'', adaptações canhestras de textos argentinos, tão logo Nílton Travesso trocou o SBT pela Band dois anos depois. ''Aqueles teleteatros mais pareciam uma sessão de tortura'', compara.
Por essas e outras, Bete é tão bissexta na tevê. O seu último trabalho na tevê foi na novela ''Serras Azuis'', da Band. ''Não tenho o menor preconceito em fazer tevê. Desde que seja bem-feita, faço sem o menor problema'', ressalva, categórica. Na época de ''Serras Azuis'', por exemplo, a atriz teve a infeliz idéia de conciliar as gravações da novela com os ensaios do espetáculo ''Cacilda!'', de José Celso Martinez Corrêa. Quase surtou. Desde então, prometeu a si mesma que jamais repetiria tal sandice. ''O trabalho na tevê não termina com as gravações. Quando chego em casa, já tenho outros capítulos para decorar'', suspira.

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