Humor negro e poético
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quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Márcio Maio<br>TV Press 
Miguel Falabella é um provocador. E seus trabalhos como autor na tevê expressam bem essa característica. Por isso, diz que se acostumou a ser criticado. Mas esse discurso não combina com a atual fase que vive. Autor e protagonista de "Pé na Cova", exibido nas noites de terça, na Globo, Falabella jura que não se orgulha de ter ganhado uma segunda temporada do seriado com a terceira praticamente confirmada pela repercussão positiva de crítica.
Intitulando-se um autor "do povão", garante que seu maior prazer nesse projeto é perceber que as classes mais populares, para quem diz escrever, "compraram" sua ideia. E que a experiência de sua criação no subúrbio se reflete nesse resultado. "A família disfuncional cria uma identificação popular forte. Olhar para isso com afeto e não com um dedo inquisidor atinge as pessoas", avalia ele, cujo último trabalho autoral tinha sido a novela romântica "Aquele Beijo", que estreou em 2011.
Quando "Pé na Cova" estreou, você tinha expectativa de que o seriado pudesse emplacar?
Minha preocupação era se essa levada de humor negro com poesia seria compreendida. Uma humanidade vem à tona diante do lidar com a morte cotidiano daquela funerária. E são personagens muito livres no que diz respeito às opções de vida. Tem casal lésbico, mecânico travesti, alcoólatra, político corrupto... É muita coisa junta. Me encantou ver que tocou o povão. E tocou forte, porque ando nas ruas e falam muito comigo. Fiquei feliz, mas não com os elogios de crítica. Apesar da boa repercussão, mesmo se tratando de mim como autor, uma pessoa de quem sempre falam muito mal.
Seu foco é nas classes mais populares. Por quê?
Nunca fiz televisão para a classe A, só para o povão. Me considero um cara popular. Vou dizer mais: o povão entende as minhas críticas. E olha, ele nem quer se ver na tela. Quando se vê, sabe que não deveria ser do jeito mostrado. Em "Pé na Cova", por exemplo, a filha não deveria tirar a roupa na internet. O próprio Ruço é um observador e um homem chocado com o mundo alucinado que o cerca. Quem assiste percebe que ele não acha bonito ter um filho político corrupto e uma filha "stripper".
Você disse que as pessoas falam muito com você nas ruas e que "Pé na Cova" "tocou o povão". Quem é o público que fala com você?
Tem gente de todos os tipos. Mas os homens sentem muita empatia por mim. A vida inteira eu fiz esses bofes suburbanos. E a minha realidade é mesmo de carioca suburbano. Homenageio os homens com quem fui criado a vida inteira. É engraçado que, no resto do Brasil, as pessoas acham que os personagens são cariocas demais. Mas é o que eles são, não poderiam ser diferentes. A coisa da família disfuncional já dizia Nelson Rodrigues que, olhando de perto, ninguém é normal cria uma identificação popular forte.
Qual era o seu intuito quando decidiu escrever "Pé na Cova"? De onde surgiu a ideia da série?
Lembro que um dia eu estava em casa, me debrucei na varanda, olhei a Lagoa Rodrigo de Freitas e pensei: "gente, tenho 55 anos. Quanto tempo mais me resta de vida útil, produtiva"? Daí, veio a ideia de escrever. O Ruço nasceu de uma reflexão sobre a minha própria finitude e isso foi para o personagem. Daí, surgiu a funerária.
E que reflexões faz hoje sobre essa finitude?
Tenho de priorizar a minha vida. Quero escrever cada vez mais. Já tenho um romance começado que não consigo acabar por falta de tempo. Televisão me ocupa demais. Por isso eu penso em parar de atuar. Farei uma peça ou outra, talvez. Mas musicais, acho que já encerrei porque cansa muito.
Tem planos para uma nova novela?
Até tenho uma sinopse maravilhosa, mas estou achando tudo tão pobre. Bom, não vejo televisão, então nem posso falar muito. Outro dia mesmo um jornalista me perguntou sobre essa coisa de Marina Ruy Barbosa raspar ou não a cabeça e eu disse que não sabia quem era essa atriz. E não sei mesmo. Como vou saber? Falaram dessa história de cabelo, tentando arrancar uma resposta, mas eu, de verdade, não sabia de quem se tratava. Não tenho tempo, escrevo um seriado, atuo, faço mil outras coisas ao mesmo tempo, enfim, minha agenda está toda tomada. Mas tenho uma sinopse ótima para o horário das sete. Chama-se "Por Amor ou Por Dinheiro". Entrego e vejo no que dá.
Você sempre disse que ter um casal lésbico em "Pé na Cova" não tinha qualquer função social na história. Mas fazer as personagens adotarem um menino de rua muda isso?
Objetivo de levantar bandeira a gente não tem. Mas acaba levantando, sem dúvida. Em um país como o Brasil, se vamos falar de direitos humanos, temos de começar falando de educação, que é o principal direito ao qual não temos acesso. O Brasil é medieval ainda na questão dos direitos humanos, do voto secreto... Bom, Brasília é medieval. O que eu acho que as pessoas devem entender é que o escabroso de "Pé na Cova" é o escabroso do Brasil, porque vivemos, sim, em um país escabroso. Você abre o jornal de manhã, lê e tem vontade de chorar. Se for a página de política então, você se pergunta que lugar é esse onde vive. As pessoas fazem o que querem, é uma vergonha. "Pé na Cova" é uma tradução humorada da situação de penúria que todos vivemos. Nenhum de nós tem cidadania. E o público entende isso. O povão é bem mais esperto do que se pensa.
Por que diz isso?
De um modo geral, as pessoas de classes populares se divertem mais. Quer ver? Comprei apartamento para minhas empregadas em Realengo, então as duas moram no mesmo andar. Elas deram uma festa e eu fui. É uma farra aquele prédio. Mora travesti, prostituta, tudo misturado. E todo mundo estava na festa brincando, dançando, feliz e respeitando as diferenças. A sobrevivência obriga você a ser mais flexível. A classe média é que não tem dignidade, fica um ranço. Rico está se lixando, se droga, transa com quem quer. O pobre também. A classe média é que fica acreditando em conceitos.


