Humor ferino e boa interpretação
Francelino França
De Londrina
Aquela velha casinha, onde o grande amor nasceu, é palco para um inevitável game conjugal. O ringue familiar ultrapassa o 30º round. De um lado, Isaque, o marido, aposentado, barbas brancas e combalido. Do outro lado, Rebeca, a esposa, dona de casa, desprezada e irônica. Os dois se revezam nos golpes certeiros. O relacionamento claustrofóbico do casal Isaque e Rebeca, personagens de O Altar do Incenso, texto de Wilson Sayão, se estrutura nesse contexto, mas é potencializado por um fator externo aterrorizante. Um ladrão está causando pânico nas redondezas, amedrontando os moradores durante a noite.
Insones e reféns do próprio medo, enquanto seu lobo não vem, o casal deixa boiar todas as aflições interiores, com odor de naftalina. A culpa da incapacidade pessoal está sempre no outro. O texto de Wilson Sayão é despretensioso, mas competente. Autor da premiada Anônima, ele discute nessa peça a relação a dois, salpicada com humor ferino. Marília Pêra não deixa escapar a oportunidade de suplantar o texto de Wilson Sayão, autor ainda restrito aos círculos teatrais cariocas.
O texto bíblico do Êxodo é evocado, e nele se justifica o título da peça. O Altar do Incenso não deixa de ser uma metáfora em que Sayão exorciza seus demônios interiores. Nessa direção, o resultado é uma relação de dependência, em que imperam os ataques diretamente na ferida cuja crosta nunca se desprende. Machuca, de qualquer forma.
A metáfora do ladrão é um pretexto para Sayão revolver os cataclismas conjugais, questionar o conceito de felicidade a dois, na inexistência de filhos. O universo se restringe à medida do umbigo de cada um. Mesmo quando a solicitação de solidariedade vem da vizinhança, eles já estão impotentes, deixaram esvair a aptidão para se doarem.
Isaque se ocupa em escrever seu próprio nome incontáveis vezes, quantas forem possíveis pronunciá-lo. Ela se ocupa em importuná-lo. Sem defesas, e extremamente inseguros, ambos se escoram nos defeitos um do outro, solidificados em 30 anos de relacionamento. A empatia da personagem Rebeca é imediata. Nos pequenos gestos, entonações e olhares, Marília Pêra vai esculpindo uma Rebeca patética e forte, acuada e resoluta. O humor é incorporado sem constrangimento, quando o público percebe, quer protegê-la.
Marília Pêra vai costurando um delicado painel da dona de casa, enfrentando com seu escudo de humor, sem autocomiseração. À medida em que a expectativa e o cansaço vão tomando conta dos dois, a angústia ferve o termômetro. Resultado: Isaque sofre um derrame. Atingido em seu orgulho, porque está totalmente dependente da mulher, o machismo de Isaque clama pela vinda do ladrão - que sorrateiramente ataca as vítimas durante o sono - para acabar com tudo. O ladrão vem e, surpreendentemente, apenas dá um tremendo susto nos dois.
Esse game conjugal proposto por Wilson Sayão tem nas interpretações seguras de Gracindo Junior e Marília Pêra o maior trunfo. A voz magistral de Gracindo Junior faz de Isaque um rabugento na medida certa. O diretor Moacir Chaves optou por uma direção comedida, o que no resultado final significa uma direção meticulosamente trabalhada.





