Humor em extinção
Confie em seu instinto e evite este constrangimento: ''O Animal'' (veja a programação de cinema na página 5) coloca em xeque a teoria da preservação das espécies. Neste caso, o equilíbrio ambiental está na eliminação, pura e simples. Muito radical? Então se atreva a encarar de frente esta besta híbrida, solta de comum acordo por Hollywood via indigente televisão americana a propósito, há tevê de outra bandeira que não seja indigente?
Para ver ou não ver é preciso ao menos conhecer a trama imbecilóide e se você já viu o trailer pode parar por aqui. Marvin Mange (Rob Schneider) é um burocarata aspirante a policial numa cidade do interior. Sem melhores aptidões físicas, é sempre reprovado nos testes. Um dia sofre acidente de carro e seu corpo, agora ainda mais danificado, cai nas mãos de um estranho médico-cientista. O rapaz é salvo devido a uma série de transplantes de ''doadores'' animais. Além de recuperado, ele agora convive e nós, por infeliz extensão com hábitos, comportamentos e características zoológicas que o ajudam a finalmente conseguir o trabalho como policial. Mas problemas surgem, e num acesso de megalomania intelectual, o roteiro prevê inclusive um arremedo de confronto na vertente conflito de personalidade variante de ''médico e o monstro''. Uma lástima.
O repertório de anedotas parece saído diretamente da antiga caserna, e tem o peso de um coturno recém-chegado de exercícios na lama. As poucas mais aceitáveis já foram mostrados no trailer. O ritmo, para uma comédia que pretende fazer rir, é de irritante irregularidade, passando do vertiginoso ao arrastado sem qualquer cerimônia. É impossível e a lição passa longe do estreante diretor Luke Greenfield extrair comicidade de um território que decididamente não tem. Como o filme é produto malcriado da telinha (''Saturday Night Live'' é a origem), em alguns momentos as auto-suficientes e aqui inexplicáveis pausas tem explicação óbvia. Rob Schneider, já diagnosticado no início do ano com ''Gigolô por Acidente'', é uma espécie de elo perdido da comédia. Talvez lá no fundo, muito lá no fundo, exista nele um débil sinal de Jerry Lewis em busca de uma transição lenta para Jim Carrey. As melhores interpretações do filme são literalmente dos bem treinados animais, em particular um orangotango.
''O Animal'' é parte desse infeliz grupo de comédias realizadas com insuportável frequência, constituindo penoso exemplo de como Hollywood via de regra trabalha o gênero: reciclando humor televisivo de baixa qualidade, acrescentando meia dúzia de cenas escatológicas e substituindo talento por popularidade. (C.E.L.J.)





