A cena é cômica. Olavo Bilac (1865 -1918), o grande poeta parnasiano da literatura brasileira, está tentando evitar um roubo. Para isso utiliza o único instrumento que tem, a palavra. Como a realidade não é feita de palavras, recebe sorrateiramente uma bengalada na cabeça de uma mulher estonteante. Uma beldade capaz de parar trânsito no Rio de Janeiro, em 1903. Com o impacto da pancada, Bilac desmaia como numa cena de cinema. Inconsciente, sonha que viaja através de um maravilhoso céu estrelado em direção ao Olimpo.
Daí o título do livro: ‘‘Bilac Vê Estrelas’’. Trata-se da estréia do jornalista carioca Ruy Castro como ficcionista. Após um longa trajetória pelo jornalismo e ótimas biografias como ‘‘Chega de Saudade - A História e as História da Bossa Nova’’ (1989), ‘‘O Anjo Pornográfico - A Vida de Nelson Rodrigues’’ (1992) de ‘‘Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha’’ (1995) seria previsível uma aventura desse tipo.
O romance ‘‘Bilac Vê Estrelas’’ foi escrito sob encomenda para a coleção ‘‘Literatura ou Morte’’ idealizada pela Companhia das Letras, que já publicou, entre vários títulos, ‘‘Borges e os Orangotangos Eternos’’ de Luis Fernando Verissimo; ‘‘O Doente MoliSre’’ de Rubem Fonseca; e ‘‘Os Leopardos de Kafka’’ de Moacyr Scliar.
Olavo Bilac, boêmio inveterado, eleito o primeiro ‘‘príncipe dos poetas brasileiros’’, é personagem principal do romance (ou novela) de Ruy Castro. A história se passa no Rio de Janeiro do início do século 20. O poeta descobre que seu fiel amigo de copo, José do Patrocínio, está exilado em sua casa tentando inventar uma máquina voadora nunca vista: um dirigível.
Contagiado pelas conquistas de Santos Dumont na França, o jornalista abolicionista José do Patrocínio entra de cabeça no desafio. O grande problema é falta de dinheiro para a viabilização do projeto. Bilac, contagiado pelos delírios do amigo, encampa a causa em exasperados artigos em jornais cariocas.
Empresário franceses ficam sabendo da invenção de Patrocínio e resolvem roubar o projeto. Para isso contratam para a empreitada uma experiente e excitante jovem portuguesa para seduzir Bilac e ludibriar Patrocínio com objetivo de roubar o invento. Castro realiza uma reconstituição da Belle Époque carioca onde a grande maioria dos personagens realmente existiu, em carne e osso.
Com essa trama, Ruy Castro constrói uma narrativa repleta de humor e comicidade. Utiliza características da literatura superficial e de entretenimento para contar um história sem grandes surpresas e de conteúdo diluído. Uma obra que com certeza levará divertimento à milhares de leitores, fazendo parte de uma vertente que começa a predominar a literatura brasileira de hoje.
Se a comédia ‘‘Bilac Vê Estrelas’’ for espremida, poucas gotas de essência sairiam de suas páginas. Aí surge a pergunta: não era de se esperar mais de um intelectual que construiu uma reputação de bom senso dentro da cultura brasileira das últimas décadas? A resposta talvez seja não. Isso porque o romance de Ruy Castro é uma extensão natural de seus trabalhos anteriores, onde coloca apenas um dos pé na literatura propriamente dita, não o corpo inteiro.
Castro possui o mérito ser o único escritor contratado para a coleção ‘‘Literatura ou Morte’’, até agora, a escolher como personagem um literato brasileiro – já foram enfocados, Franz Kafka, Marquês de Sabe, MoliSre, Arthur Rimbaud, Robert Louis Stevenson e Jorge Luis Borges. Olavo Bilac foi jogado aos ostracismo pelo Modernismo, local de permanece até os dias de hoje.
Vale lembrar que o serviço militar obrigatório em vigor ainda hoje é fruto de uma campanha criada pelo boêmio Bilac em 1915. Com o peito inflado de civismo, defendia a criação do serviço militar obrigatório acreditando que a medida daria melhores condições de vida aos jovens carentes dos morros do Rio de Janeiro. Ilusão de poeta depois do ‘‘oitavo café com conhaque sem caf钒, como se dizia na gíria da época. (M.L.)
• ‘‘Bilac Vê Estrelas’’ de Ruy Castro, Editora Companhia das Letras (telefone 11/3847-0801), 152 páginas, R$ 19,00.

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