Em mais de 60 anos dedicados à tevê, Maurício Sherman muitas vezes apostou nos musicais para levantar seus programas. Foi assim na Tupi, na Excelsior e na própria Globo, onde ingressou pela primeira vez em 1965, à frente da direção do "Espetáculos Tonelux", apresentado por Marília Pêra, Gracindo Júnior, Paulo Araújo e Riva Blanche.
Por isso mesmo, não chega a ser surpresa que, agora, na hora de reformular o "Zorra Total", tenha optado por um ambiente com mais espaço para espetáculos de dança e canto. Algo que já acontecia no cenário de metrô, mas nem sempre bem justificado. Agora, até mágicas são exploradas.
Com a volta de Katiuscia Canoro ao humorístico – ela estava em período de licença-maternidade –, a ex-prostituta Lady Kate encabeça o elenco do "Kate's Kabaret". Na verdade, essa parece ser mais uma tentativa de recuperar o fôlego da personagem, que durante muito tempo foi o que de melhor o "Zorra Total" tinha a oferecer. Esse, aliás, é um dos pontos negativos recorrentes do programa: "gastar" ao máximo qualquer personagem que se destaque no meio do farto elenco. Além de abrir os episódios, o escolhido é quase sempre inserido em todos os blocos e, muitas vezes, repetindo as piadas à exaustão.
Atualmente, é o que acontece com Rodrigo Sant'anna e Thalita Carauta. A dupla já mostrou que tem talento e é, sem dúvida, um diferencial do "Zorra Total". Mas, pelo menos até onde se viu, não se enquadra tão bem nesse ambiente festivo e musical. Tanto é que os quadros que ficaram de fora do cabaré são quase sempre os deles. O forte apelo popular de Valéria e Janete, os principais papéis que a dupla interpreta, destoa do clima "glamuroso" que o novo formato impõe. Talvez combinasse mais com os bons tempos da laje – cenário que, diga-se de passagem, criava um equilíbrio maior com os exageros e tipos populares tão explorados pela equipe.
O potencial do programa como celeiro de talentos é incontestável. Por lá já passaram Heloísa Perissé, Ingrid Guimarães, Maria Clara Gueiros e muitos outros nomes. Porém, a maioria dos artistas que se consagra ali chega com personagens prontos. Ou seja, precisa mesmo é do espaço para mostrar o trabalho.
Talvez essa seja uma das razões para a falta de apostas maiores em conteúdos. Sim, porque nesses 14 anos de exibição, pouco se viu de esforço para deixar o programa mais reflexivo. A graça normalmente está em piadas óbvias e todos os episódios se parecem demais no que diz respeito ao humor. Até as tentativas de críticas políticas e sociais, muitas vezes, ficam rasas. Uma pena, porque talento é o que não falta em Sherman. E, sem dúvida, o elenco tem bem mais a oferecer do que o que é mostrado.

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