Fernanda Montenegro apresenta hoje e amanhã, às 21 horas, no Guairão, com André Valli, o espetáculo ‘‘Alta Sociedade’’, escrito e dirigido por Mauro Rasi. Definido pela própria atriz como uma comédia política que retrata a situação do País, o espetáculo poderá ser assistido por um grande número de pessoas, uma vez que há ingressos custando entre R$ 5,00 a R$ 30,00.
Fernanda Montenegro recebeu a imprensa ontem numa entrevista coletiva, quando falou do espetáculo, de teatro, dos planos futuros e da situação atual brasileira. A seguir os principais trechos.
Como você define ‘‘Alta Sociedade’’?
É uma crônica dramatizada. Não é um monólogo, mas uma peça que usa de um humor corrosivo, como é típico do texto do Mauro Rasi, para meter o dedo nas feridas, nas porcarias políticas do Brasil.
Como as personagens foram construídas?
Um casal super bem de vida, que se vê arruinado porque o marido é um péssimo corrupto. Eles são coadjuvantes na corrupção, mas não na estirpe. Estão à beira de receber a polícia para uma inspeção na vida deles.
Qual a ambientação da peça?
A peça se passa no dia 31 de dezembro de 2000, no Edifício Chopin, famoso no Rio de Janeiro, onde, nesse dia, se encontram mais de 4 mil pessoas para assistir ao espetáculo dos fogos de artifício em Copacabana. Não há elevadores nem escadas para atender essa demanda, mas todo mundo vai todos os anos há muito anos. É uma zorra. Nesse prédio ainda mora muita gente da sociedade e eu acho que é um pouco do Brasil. O casal fica alí execrando tudo o que se passa, porque se sente acima do bem e do mal.
Como o ambiente político entra em cena?
Por intermédio de referências a pessoas chamadas Nicolau, Estevão, Jader, ACM, a padeira emergente da Barra, a Narcisa e o próprio Edifício Chopin, que ao contrário do que esperávamos, não é restrito ao Rio, mas é uma referência nacional.
Por que uma comédia?
Pedi para o Mauro apenas uma comédia. Ele escolheu o tema. Eu vinha fazendo trabalhos mais pesados, tensos, com personagens sofridas, como em ‘‘Da Gaivota’’ e ‘‘Central do Brasil’’, que duraram até dois anos e queria, agora, trabalhar uma comédia, por ser um excelente exercício para o ator. É preciso diversificar o trabalho.
Como você observa o teatro brasileiro atual?
Como o País todo. O ensino, a saúde, as administrações, estamos todos vivendo emergencialmente como se vive há muitos anos no Brasil. Tentando driblar as dificuldades, no plano cultural e na vida. Temos, ao mesmo tempo, a maior tecnologia em alguma coisa e a maior miséria em todas as outras coisas. Fica tudo muito complicado.
A cultura está sendo prejudicada?
Não podemos parar de produzir. A vida do fazer cultural no Brasil é uma vida de profissionais que têm de produzir, têm de comer. Neste campo está tão batalhado como qualquer outro cidadão no País. Não somos uma fantasia, somos uma realidade. E por isso tenho que citar nossos patrocinadores: Telepar Brasil Telecom, Petrobrás, Eletrobrás, Secretaria de Comunicação Social do Paraná e temos o apoio do Hotel Mabu. Atualmente é essa a forma de se produzir cultura em todas as áreas, não só no teatro. Estamos nas mãos das leis de incentivo. E em absoluto, por ser Fernanda Montenegro, sou exceção. Até por que ser exceção não é ético, nem agradável. Temos também de percorrer dezenas de empresas com paciência e generosidade.
Quais são os seus planos?
Sempre o teatro. O teatro depende do teu físico e do outro que está à sua frente. A largada é dada e o ator só depende dele mesmo, num ato de vida ou morte. A gente se habitua com a adrenalina. O que fascina no teatro é o fato de não haver interferências. A platéia escolhe o que quer ver, se é a cortina, meu sapato,... O ator está ali por inteiro. Todos os dias a gente faz os mesmos gestos. Uma vez melhor, outras não muito, tem dias que acerta. O teatro é feito todos os dias, numa dinâmica que não pára. Meu ofício é como outro qualquer. Escolhi essa profissão, vivo disso.
‘‘Alta Sociedade’’, com Fernanda Montenegro e André Valli, com texto e direção de Mauro Rasi, hoje e amanhã, às 21 horas, no Guairão. Ingressos de R$ 5,00 a R$ 10,00.

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