Em cena, a mãe, a filha, o escritor e a criada. É desta maneira - sem nomes mesmo - que o público tomará intimidade com tais personagens saídos da imaginação do escritor e dramaturgo Thomas Bernhard, austríaco por vivência e holandês por nascença. A peça é ‘‘No Alvo’’, traduzida por Wolfgang Pannek e dirigida por Luciano Chirolli. No papel central, Maria Alice Vergueiro, uma das mais respeitadas atrizes do teatro brasileiro, que atua com Agnes Zuliani, João Carlos Andreazza e Marinez Lima. Ao todo, 1h20 (com um breve intervalo) de espetáculo que será apresentado hoje (quarta) e amanhã (quinta), às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (confira programação nesta página).
A ação da peça se passa na Holanda, mais precisamente em Roterdã, presumidamente no final dos anos 50. Pós-guerra, em outras palavras. Uma tragicomédia, para melhor situar o espectador quanto ao gênero. Maria Alice Vergueiro encarna a viúva de um proprietário de fundição - que, presume-se, teria tido grande valia durante a guerra - exemplar mais que típico da alta burguesia. Ela é cruel e autoritária. E vive uma relação sadomasoquista com a fraca e oprimida filha (Agnes Zuliani). Casou-se por interesse.
O espetáculo começa na casa da cidade. E lá que mãe e filha sentem a convivência monótona ser abalada após assistirem a uma peça de teatro intitulada ‘‘Salve-se quem Puder’’. O outro cenário - daí o motivo do intervalo do espetáculo - é a casa de praia para onde mãe e filha vão, acompanhadas de um jovem escritor dramático (João Carlos Andreazza).
Antes da relação mãe-filha, ‘‘No Alvo’’, com seu humor corrosivo, desmascara o discurso político e cultural das classes dominantes e discute o papel do artista na sociedade. ‘‘O papel do artista é discutido com uma preocupação filosófica do que é o homem sobretudo na sua transcendência’’- explica Maria Alice Vergueiro. ‘‘A impressão é que se trata de uma peça pessimista. Mas eu a vejo como niilista, realista’’- completa.
Talvez seja por isso que a atriz, visivelmente apaixonada pelo texto e pela personagem que interpreta, consegue encontrar mais figuras de linguagem no espetáculo do que metáforas. ‘‘Há um clima de metalinguagem porque o autor fala do teatro como se o mundo fosse um grande teatro. Ou seja, você entra em cena e consequentemente está determinada a sua morte’’ - analisa.
Ódio e amorEssa é a primeira montagem teatral de um texto de Thomas Bernhard no Brasil. Nem mesmo Maria Alice Vergueiro consegue entender o porquê já que o autor deixou 39 peças escritas, das quais cinco estão sendo encenadas atualmente na França. Não bastasse, três de seus livros já foram traduzidos e editados por aqui - ‘‘O Náufrago’’ (Editora Rocco), ‘‘Árvores Abatidas’’ e ‘‘O Sobrinho de Wittgenstein’’ (ambos pela Cia das Letras). ‘‘Em vida ele já era famoso’’- adverte Maria Alice. Bernhard morreu em 1989, aos 58 anos, de ataque cardíaco.
Às mãos da atriz, o texto de ‘‘No Alvo’, publicado em 81, veio através do Instituto Goethe, de São Paulo, que há anos vem se empenhando em difundir textos importantes em língua alemã. Feita a tradução, o espetáculo estreou em setembro de 96 no Festival Internacional de Artes Cênicas, que tem à frente a empresária e atriz Ruth Escobar. A segunda estréia, dias depois, aconteceu no Espaço Goethe, onde está atualmente em cartaz.
Desde o primeiro momento em que leu, Maria Alice se deu conta da densidade e frieza do texto de Bernhard, temperado com o humor negro. ‘‘Ele (Bernhard) joga uma situação densa e nítida e cabe ao público tirar suas conclusões’’- diz ela. ‘‘Essa obra mexe com o inconsciente do público’’ - complementa.
Uma curiosidade sobre o autor: Bernhard nasceu por acaso em Roterdã, na Holanda, onde se passa a ação dramática de ‘‘No Alvo’’. Foi filho de mãe solteira, nascida na Áustria. ‘‘Apesar de ser considerado um escritor austríaco, ele (Bernhard) tinha uma relação de amor e ódio com a Áustria’’ - informa Maria Alice.
O motivo: o ódio ao nazismo e ao neonazismo. Tanto que, conforme deixou por escrito em testamento, proibiu a publicação de seus livros e a encenação de suas peças na Áustria até o ano de 2049.

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