A palavra ''diversão'' é quase um mantra para Alexandre Borges. Principalmente depois que assumiu o papel do estilista Jacques Leclair em ''Ti-Ti-Ti''. Sempre com um sorriso rasgado no rosto, o ator de 44 anos perde a noção do tempo ao discorrer sobre tudo que diz respeito ao seu personagem no ''remake'' assinado por Maria Adelaide Amaral. E justifica seu entusiasmo não apenas na chance de reviver um personagem clássico de Cassiano Gabus Mendes, mas também na oportunidade de voltar a trabalhar com comédia após um tempo interpretando tipos mais sérios na tevê.
''Para mim, 'Ti-Ti-Ti' é um retorno a esse lado cômico. É uma reciclagem legal, uma nova maneira de fazer humor. Tenho me divertido demais'', empolga-se o ator, que lista o ''bon vivant'' Danilo de ''Laços de Família'' como o papel engraçado mais marcante que interpretou.
Para viver o afetado costureiro da novela das sete, Alexandre diz sempre buscar uma ambiguidade no personagem. E se esforça para encontrar a medida certa entre o exagero, sofisticação, sensualidade e a fingida feminilidade de Jacques Leclair. ''É um personagem cheio de nuances e procuro trabalhar bem essas sutilezas. O Jacques é uma mescla de pegador e sonhador. Trabalhar isso é muito gostoso'', derrete-se.
O Jacques Leclair é um estilista que vai transitar entre a cafonice e a alta costura. Como tem sido sua relação com o mundo da moda?
Passei a prestar mais atenção em tudo, a pesquisar e olhar a moda de outra maneira. Mas hoje em dia não dá para passar batido no assunto. Tem várias revistas, internet, e você acaba conhecendo um pouco mesmo sem querer. É algo que vejo por curiosidade e que passei a acompanhar mais por causa da minha mulher (a atriz Julia Lemmertz). Minha maior inspiração foi o Dener Pamplona. Ele tinha um estilo muito particular e foi um dos pioneiros da alta costura no Brasil. Também gosto muito do Yves Saint Laurent. Li as biografias deles e me aproximei mais dessas figuras para compor o Jacques. Mas, ao mesmo tempo, ele tem características peculiares por ser um estilista da Zona Leste de São Paulo. Tem um lado meio cafona, um certo exagero, que é muito divertido.
Mas esses exageros podem cair facilmente na caricatura. Isso é uma preocupação?
Há um lado meio pastelão, cômico mesmo, que é a proposta da novela. Conversei com o Jorginho (diretor) e a gente está meio que deixando rolar. Mas não queremos estereotipar. Claro que tem um lado voltado para o humor, mas também tem outro mais sutil. Nada muito espalhafatoso. Até porque isso já tem bastante no figurino. Na própria sedução das mulheres ele já tem um lado mais delicado. É em casa que ele se mostra mais uma pessoa da Zona Leste. Estou buscando uma coisa meio andrógina no Jacques Leclair, uma certa dualidade. É um personagem bem cheio de riquezas e detalhes, e tudo isso é mesclado com comédia.
Você interpretou papéis mais dramáticos em seus últimos trabalhos na tevê, como o Raul Cadore de ''Caminho das Índias''. Como é voltar a viver um personagem tão cômico quanto o Jacques?
Já fiz alguns personagens cômicos e é algo que me dá muito prazer. Fazer rir não é fácil, mas quando você lê o texto e acha graça, já está lá. Difícil é quando tem de forçar a barra. Acho que a naturalidade está no texto. O papel do ator é transmitir. Ler, achar graça e passar para o público. Com um texto, figurino, direção e elenco como o de 'Ti-Ti-Ti' é só relaxar e mandar ver. Sou um pouco mais tímido do que o Jorge Fernando e o Murilo e demoro mais para me soltar. Mas tem sido tudo muito descontraído. Leveza, bom humor e companheirismo têm de estar presentes sempre, seja na comédia ou no drama. O ideal é que todos se divirtam.
As mudanças no seu visual, mais magro e com cabelos grisalhos, aconteceram em função do personagem?
Mais ou menos. Tive uma vida mais regrada depois de ''Caminho das Índias'', emagreci e resolvi manter para o personagem. Acabou servindo bem para o figurino do Jacques, que é cheio de lenços, roupas justas e com um estilo meio andrógino. Perdi cerca de cinco quilos. Acho importante o ator sair de sua personalidade. Fiz alguns trabalhos que me obrigaram a mudar, como o alcoólatra Cristiano de ''Celebridade'', quando tive de engordar para criar um ar mais decadente. Você tenta se moldar ao que o personagem traz. Às vezes é difícil e pouco saudável, mas tem de haver esse desprendimento pessoal em prol de um trabalho.
O fato da novela ser um ''remake'' faz muita diferença para você?
As pessoas têm uma memória afetiva muito forte da novela e isso gera uma ansiedade a mais. Confesso que criou uma expectativa muito grande em mim. Não que faça o trabalho pensando nisso, senão a gente enlouquece. Mas é um estímulo extra. O público tem uma lembrança um tanto quanto vaga, apenas do todo. Recontar essa história capítulo por capítulo é outra coisa. Foi um convite maravilhoso e inesperado. Fiquei nervoso. Mas o personagem tem essa vantagem de ser algo bem novo para mim. É interessante quando você vê que tem alguma coisa a emprestar. E isso aconteceu com o Jacques Leclair.
Você chegou a rever as cenas do Reginaldo Faria na versão original de ''Ti-Ti-Ti''?
Não. É mais uma questão de memória mesmo. Assisti à novela na época e me marcou bastante. Mas a gente busca livremente uma coisa nova. Talvez o Jacques seja mais espalhafatoso atualmente. Não revi para analisar o que fazer e sigo mais pela intuição. Cheguei tateando, na expectativa. Quando a gente fez a primeira prova de figurino, já veio essa imagem bem forte do personagem para mim.
Em 17 anos de carreira na tevê, você já fez par romântico com a Cláudia Raia seis vezes. Você não teme que fique repetitivo?
É muito difícil se repetir porque são outras circunstâncias, com personagens completamente diferentes. Temos, inconscientemente, a preocupação de buscar algo novo. A gente teve um tempo em São Paulo juntos, batendo o texto, e isso ajudou a esquentar um pouco as cenas com a nossa história. É a personagem dela que vai reinventar o Jacques, trazendo um pouco mais de bom gosto e limpando os excessos. Esse começo foi importante para esquentar as turbinas. E trabalhar com a Cláudia é sempre muito bom. Ela traz muita energia, vigor e alegria ao ''set''.
O que é mais trabalhoso na hora de dar vida ao Jacques Leclair?
Produzir o personagem. Além do figurino, também passo alguns cremes no cabelo e faço as unhas. Nunca tive de me produzir tanto para um papel. Mas é algo que faço com muito prazer. Acho que, assim como o Jacques tem o ideal de ser um grande costureiro, eu tenho o de ser um grande ator. Talvez essa seja a maior relação entre nós. Tenho muita alegria e fascínio pelo meu trabalho. Minha vontade é de sempre poder fazer personagens que surpreendam e tragam algo novo.

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