A mudança de Chico Anysio para os Estados Unidos, há duas semanas, teve um significado simbólico: o comediante era o último remanescente de uma geração. O término de seu ‘‘Chico Total’’ coincide com a aposentadoria (forçada) de um estilo de humor. Gente que brilhou, na época dos quadros fixos e bordões, está hoje longe do vídeo, reinvindicando o espaço que tiveram um dia.
‘‘Não acho graça nenhuma nisso’’, diz Agildo Ribeiro, que já teve programas na Bandeirantes, na Manchete e no SBT. ‘‘Os caras devem me odiar, porque não me chamam por nada neste mundo’’.
Há duas semanas, Agildo estreou, no Rio, a peça ‘‘O Silicone’’. Ele garante estar pronto para qualquer tipo de papel. ‘‘Sou adaptável’’, diz o humorista, que começou no teatro de revista, foi o companheiro do ratinho Toppo Giggio e fez até novela (De Quina pra Lua, de 1985).
‘‘Quando comecei, a gente admirava humoristas como Oscarito, Dercy e Costinha’’, lembra. ‘‘Hoje, um quer morder a orelha do outro’’. No ano passado, Agildo gravou um programa semanal para a TV portuguesa. Quando voltou, Chico Anysio chegou a pedir para que o substituísse temporariamente no programa, em função de seus problemas de saúde. ‘‘O Boni vetou’’, diz.
RESISTÊNCIA - O único programa atual que mantém a antiga fórmula do humor é ‘‘A Praça é Nossa’’, do SBT. Consegue a excelente média de 20 pontos no Ibope. O programa lançou nomes como Moacyr Franco, que começou como o mendigo que pedia ‘‘um dinheiro a풒. Hoje, aos 60 anos, Moacyr divulga seu CD, cujo carro-chefe é uma canção em homenagem a Chico Xavier.
A praça é o último reduto para humoristas como Ronald Golias e José Vasconcelos, que a cada 15 dias surge como ‘‘o gago’’. Em cartaz até o fim do mês em São Paulo com o espetáculo ‘‘O Rei do Riso’’, Vasconcelos, aos 71 anos, também reivindica o retorno. ‘‘Estou lutando para isso’’, diz o humorista, que em 1952 já recebia convidados amalucados em seu programa ‘‘A Toca do Jos钒, da Tupi. ‘‘Nada do que vejo hoje tem graça’’, lamenta. ‘‘O humor, além de apelativo, está relegado a segundo plano’’.
‘‘O destaque do Sai de Baixo é a Marisa Orth, que não é comediante, é atriz’’, afirma ainda o humorista. ‘‘Seu antigo sonho, o parque Vasconcelândia, acabou transformado num pesadelo. Afundado em dívidas, o empreendimento acabou leiloado na Justiça. ‘‘A vida nos prega peças’’, diz.
MIÉLE - Miéle é outro que também brilhou nos humorísticos, como o bon vivant que vivia de smoking e rodeado de mulheres. ‘‘O Casseta & Planeta é engraçado, mas os intérpretes não’’, diz o humorista, que fez uma participação no filme ‘‘O Homem Nu’’, de Hugo Carvana. Há cinco anos, ele apresentava ‘‘Coquetel’’, do SBT, uma gincana em que ‘‘as garotas tim-tim’’ podiam fazer strip-tease. ‘‘Hoje é uma fórmula ingênua’’, admite.
Funcionária da Globo, Berta Loran estava escalada para o seriado ‘‘As Tias’’, que foi cancelado. ‘‘Só soube por um jornalista’’, diz. Aos 71 anos, ela cuida bem de sua forma física, faz ginástica diariamente, só come legumes e verduras e apresenta-se no show ‘‘Divirta-se com Berta Loran’’. Depois de 17 anos nos programas de Jô Soares e outros quatro na ‘‘Escolinha do Professor Raimundo’’, ela gostaria de fazer novela. Berta se destacou como a empregada Frozina de ‘‘Amor com Amor se Paga’’. Fã de Cláudia Jimenez, diz estar decepcionada com o humor ‘‘apelativo’’. E reclama: ‘‘Deveriam mesclar os veteranos e os jovens. O humor na TV está lá embaixo.’’

mockup