Humilhação em grau superior
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de maio de 2002
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 
Entre os sete pecados capitais, talvez a soberba seja o mais assimilado e diluído pelo mundo contemporâneo. Ou seja, praticamente deixou de ser associada ao pecado. A superioridade do eu, em relação à inferioridade do outro, assumiu a imagem de algo comum nos dias de hoje. A globalização, por exemplo, seria uma espécie de soberba convertida em virtude do sucesso.
Mas quando a soberba entra no campo amoroso entre homem e mulher, assume a forma de beco escuro e violento. Onde aquele que não consegue deter o objeto de seu amor é capaz de qualquer atitude. Até mesmo a extinção do outro em função do eu. É nesse terreno escorregadio que O Vôo da Rainha, romance do escritor e jornalista argentino Tomás Eloy Martínez, caminha nas pontas dos pés.
A soberba é tema de O Vôo da Rainha, último volume da coleção Plenos Pecados idealizado e publicado pela Editora Objetiva. Depois de Zuenir Ventura focalizar a inveja (Mal Secreto, 1998), José Roberto Torero a ira (Xadrez, Truco e Outras Guerras, 1998), Luis Fernando Verissimo a gula (Clube dos Anjos, 1998), João Ubaldo Ribeiro a luxúria (A Casa dos Budas Ditosos, 1999), João Gilberto Noll a preguiça (Canoas e Marolas, 1999) e Ariel Dorfman a avareza (Terapia, 1999), agora é a vez de Tomás Eloy Martínez abordar a soberba considerada mãe da ambição, da ostentação, da arrogância, da presunção, da hipocrisia e outras coisas do ramo.
O livro encerra, com atraso, a coleção Plenos Pecados. O Vôo da Rainha estava previsto para ser publicado em 2000, mas dois dramas atrapalharam a conclusão da obra. Primeiro, Tomás Martínez ficou muito doente. Após a recuperação, sofreu um acidente automobilístico que provocou a morte de sua esposa e o deixou meses no hospital.
O Vôo da Rainha conta uma história de amor entre Camargo, um rico e poderoso jornalista, e Reina, uma jovem redatora em início de carreira. Mais de trinta anos mais velho, Camargo tem em suas mãos poder e glória e utiliza sua influência para conquistar Reina. Após alguns anos, a moça abandona Camargo que, então, passa a utilizar seu poder para atrapalhar o futuro da ex-namorada.
O romance se baseia num caso real acontecido no Brasil recentemente, quando um dos diretores do jornal O Estado de São Paulo assassinou a tiros sua ex-namorada, também jornalista. O motivo era aparentemente simples: a moça, mais jovem e sua pupila, tinha rompido o namoro. Como pano de fundo, Tomás Martínez coloca o contexto político da Argentina nos últimos dez anos com ênfase na corrupção e a participação da mídia no lamaçal.
O personagem Camargo encarna o grande soberbo que a sociedade considera como homem de sucesso. Como sempre, apesar de conseguir tudo o que deseja, trata-se de um homem infeliz. E quando percebe que não pode possuir o amor da mulher que ama, volta ao instinto primitivo de vingança.
O Vôo da Rainha possui uma estrutura bem realizada, onde passado, presente e futuro transitam entre si criando um certo suspense. O deslize do autor está em construir as bases da história ao longo de 200 páginas para apresentá-la em seu real conteúdo, ou elucidá-la nas 80 páginas restantes. Prolongando em demasia as bases os corredores da história pode até despertar nos leitores algum tipo de enfado.
O Vôo da Rainha se insere no grupo de romances da coleção que não encaram os pecados de frente, de maneira objetiva e concreta. Pelo contrário, oferece uma visão subjetiva, através de um viés sentimental. Embora o personagem principal seja a típica figura soberba, o autor desloca a atenção para a soberba amorosa que culmina num clássico impasse: Não há nada mais difícil que amar e ao mesmo tempo aceitar que o outro não nos ama.
Serviço:
O Vôo da Rainha de Tomás Eloy Martínez, Editora Objetiva, tradução de Sérgio Molina, 280 páginas, R$ 27,90.
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Ele consegue se concentrar em mais de uma realidade ao mesmo tempo, mas os fatos que ocorrem fora dele não lhe interessam porque se movem sozinhos, sem necessidade de seu controle. É verdade que, ao narrá-los, ele os modifica. Mas qual o valor disso? Mereceriam sua atenção se eles também o modificassem, mas nada no mundo altera o duro metal de sua substância, nada o obriga a ser o que ele não quer. Nada exceto a mulher: é a única coisa que o tira do eixo. Na ordem da história, ela é muito menos que uma variação atmosférica, que uma cor desbotada, que bracejo de uma foca. Mas, na ordem da vida, ocupa um espaço que o asfixia e que não permitirá ser ele enquanto não o reduzir a seu verdadeiro tamanho de nada, enquanto não o confinar na praia mais remota dos seus pensamentos. Se a mulher aceitar, casará com ela: possuí-la como um objeto, pintá-la na parede, lhe trará paz. E se ela negar? Mas não há nenhuma razão para que se negue. É uma pessoa em ruínas, e ele lhe oferece reconstituí-la, refazê-la do zero.
(Fragmento de O Vôo da Rainha )


