Hume, o empirista radical
ReproduçãoHume: filósofo de lógica implacável, cujas qualidades são abordadas em livro de Anthony QuintonCoordenada pelos professores Ray Monk, biógrafo de Wittgenstein, e Frederic Raphael, roteirista do derradeiro filme de Stanley Kubrik, ‘‘De Olhos Bem Fechados’’, a série inglesa de pocket books ‘‘Grandes Filósofos’’ tem os seus seis primeiros (e magros) volumes lançados no Brasil, pela editora Unesp. São eles: ‘‘Sócrates’’, de Anthony Gottliebh, ‘‘Descartes’’, de John Cottingham, ‘‘Voltaire’’, de John Gray, ‘‘Hume’’, de Anthony Quinton, ‘‘Kant’’, de Ralph Walker, e ‘‘Marx’’, de Terry Eagleton. Não obstante o fato de nenhum deles possuir mais do que 70 páginas e levando em conta a complexidade das obras dos pensadores enfocados, não são – surpreendentemente – livros superficiais.
Destaco, dentre eles, o volume dedicado a Hume, não porque seu texto seja melhor ou mais completo do que os dos demais, mas pela própria natureza do discurso deste filósofo escocês – que a mim continua parecendo extremamente válido e atual –, bem como por sua fascinante personalidade. Inevitável que justifique isso recorrendo a alguns dados biográficos.
Diferentemente da imagem clássica do filósofo, que o apresenta como um sujeito autoconfinado numa torre de marfim intelectual, alheio aos prazeres do mundo, David Hume – nascido em Edimburgo, capital da Escócia, no dia 7 de maio de 1711 – foi um homem afeito ao burburinho mundano, alegre, espirituoso, e, apesar de não se encaixar em qualquer padrão de beleza masculino, sempre atraiu as mulheres.
Ainda adolescente, envolveu-se com uma mulher casada, Anne Galbraith, que depois o acusaria de ser pai de seu terceiro filho. Muitas outras aventuras amorosas se sucederam, ao longo dos seus 65 anos de vida. Bem relacionado, Hume foi amigo do pensador da economia política Adam Smith, do naturalista Buffon, do administrador Turgot, do escritor Jean François Marmontel e dos filósofos Helvétius e D’Alembert, entre outras personalidades de sua época.
Tendo, quando jovem, abandonado os estudos de Direito para dedicar-se às leituras de Cícero, Horácio, Virgílio e dos grandes escritores ingleses, tentou a sorte, posteriormente, como funcionário de um mercador das Índias Ocidentais (embora o emprego lhe parecesse um passaporte para excitantes viagens a países exóticos, nunca conseguiu ir além da França), como professor de ética da Universidade de Edimburgo (que recusou-lhe o cargo por considerar o pretendente herege, ateu e ‘‘notório infiel’’), tutor do marquês de Annandale, secretário do general Saint-Clair, titular da cátedra de Lógica da Universidade de Glasgow (outra pretensão frustrada), conservador da Biblioteca dos Advogados em Edimburgo (da qual teve de demitir-se, acusado de introduzir no acervo livros licenciosos) e, por fim, como diplomata, carreira que franqueou-lhe o acesso aos mais elegantes salões europeus e favoreceu o assédio das mulheres (valendo mencionar, entre elas, a francesa Hyppolite de Saujon, célebre por sua inteligência e beleza).
Porém, com a mesma facilidade com que conquistava amigos e amantes, Hume colecionou inimigos, os quais abominavam as suas idéias filosóficas, expressas em obras como o ‘‘Tratado da Natureza Humana’’, os ‘‘Ensaios Morais e Políticos’’ e a ‘‘Investigação Acerca do Entendimento Humano’’. Particularmente tenso foi o seu relacionamento com Jean-Jacques Rousseau, de quem a princípio foi amigo, chegando mesmo a abrigá-lo na Inglaterra; depois, com o agravamento das neuroses do filósofo francês (que sofria de delírios de perseguição), encerrou essa amizade com estardalhaço, publicando o ‘‘Relato Conciso e Genuíno das Relações entre os Senhores Hume e Rousseau’’ e chamando este de ‘‘o mais sombrio e horroroso vilão que existe no mundo’’.
Hume Filósofo
No plano das idéias, David Hume foi, como bem sintetizou João Paulo Gomes Monteiro, em texto produzido para a coleção ‘‘Os Pensadores’’, da Nova Cultural, ‘‘um filósofo empirista quanto ao problema da origem do conhecimento, cético em relação à metafísica e utilitário altruísta em assuntos morais e políticos.’’
Especialmente notáveis são a sua crítica ao princípio da causalidade – na qual radicaliza até às últimas consequências o seu empirismo e coloca em xeque os postulados da metafísica racionalista – e a sua crítica da religião (notadamente nos ‘‘Diálogos Acerca da Religião Natural’’).
Vão aqui, resgatados de um velho caderno de anotações, alguns trechos selecionados, traduzidos pelo sobrecitado Gomes Monteiro, os quais, acredito, podem fornecer uma razoável amostra destes dois aspectos da obra de Hume:
-‘‘Se bem que não exista no mundo isso que se chama acaso, nossa ignorância da verdadeira causa de uma ocorrência tem o mesmo efeito sobre o entendimento e engendra uma espécie semelhante de crença ou opinião.’’
-‘‘No que tange à probabilidade das causas, dá-se exatamente o mesmo que com as do acaso. Existem algumas coisas que são inteiramente uniformes e constantes na produção de um efeito particular, e até hoje não se observou um só exemplo de falha ou irregularidade na sua operação. O fogo sempre queimou e a água sempre sufocou qualquer criatura humana. ( ... ) Mas há outras causas que se têm mostrado mais irregulares e incertas: o ruibarbo nem sempre age como um purgativo ou o ópio como um soporífero para todos os que ingerem esses medicamentos. É verdade que quando uma causa qualquer deixa de produzir o seu efeito habitual os filósofos não atribuem tal fato a alguma irregularidade na natureza, mas supõem a ação de causas secretas localizadas na estrutura particular das partes, que impediram a operação. Nossos raciocínios, porém, e as conclusões relativas ao acontecimento são os mesmos que seriam se não existisse esse princípio.’’
-‘‘As cenas do universo mudam continuamente e um objeto segue-se a outro em sucessão ininterrupta; mas o poder da força que aciona a máquina inteira nos fica inteiramente oculto e jamais se manifesta em qualquer das qualidades sensíveis do corpo.’’
-‘‘... a experiência só nos ensina que um acontecimento se segue constantemente a um outro, sem nos mostrar a conexão secreta que os liga entre si e os torna inseparáveis’’.
-‘‘... mesmo nos acontecimentos mais familiares, a energia da causa é tão ininteligível como nos mais insólitos e que só aprendemos pela experiência a conjunção frequente dos objetos, sem jamais podermos perceber qualquer coisa que se pareça com uma conexão entre eles’’.
-‘‘... objetos que comumente denominamos causas não são, em realidade, mais do que ocasiões’’.
-‘‘Não temos nenhuma noção do Ser Supremo, a não ser a que nos advém da
reflexão sobre as nossas próprias faculdades.’’
Ora, a substituição das noções de causa e conexão necessária pela de ocasião, o argumento de que a idéia de Deus não pode advir de outra fonte menos falível e imperfeita do que as faculdades humanas e a atribuição, para fins práticos, do mesmo valor às causas e ao acaso por certo ainda hoje são capazes de gerar polêmica, e, portanto, não admira que Hume permaneça, neste final de milênio, como um filósofo instigante, dotado de uma lógica implacável – qualidades bem abordadas no pequeno e útil livro de Anthony Quinton agora editado no Brasil.

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