Humberto Werneck relança ''O Desatino da Rapaziada''
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segunda-feira, 30 de julho de 2012
Maria Fernanda Rodrigues <br>Agência Estado 
São Paulo - Quando Antonio Fernando de Franceschi procurou Humberto Werneck duas décadas atrás, pediu que ele escrevesse, para o Instituto Moreira Salles (IMS), um livro que estudasse e relacionasse as atividades jornalística e literária em Minas Gerais. ''Escolheu a pessoa errada porque eu nunca fui estudioso, mamãe já falava isso'', brinca o autor.
O agravante: o campo era vasto e na lista dos jornalistas e escritores a ser estudada estavam Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, Ivan Ângelo, Silviano Santiago, Murilo Rubião e mais algumas dezenas de mineiros que sacudiram Belo Horizonte no século passado.
Werneck, ele também um mineiro, de uma geração de jornalistas que sucedeu a desses mitos, vendo tantos e tão bons personagens, com histórias reais dignas das melhores obras de ficção, escreveu então uma crônica, transformada no livro ''O Desatino da Rapaziada'' que o IMS e Companhia das Letras lançaram em 1992.
Depois de alguns anos fora de catálogo, a obra do colunista do jornal O Estado de S. Paulo sobre os jornalistas e escritores que viveram em Minas entre 1920 e 1970, ainda atual, ganha segunda edição com algumas poucas modificações. ''É um livro datado, de 1992, qualquer coisa que eu pusesse ali e que atualizasse, eu criaria um anacronismo'', explica. Muita coisa aconteceu nesses anos, parte dos retratados morreu - o que colocou alguns verbos no passado -, e mexer no conteúdo seria escrever outro livro. ''Um desatino que deixo para alguém mais.''
A mão do autor coçou, porém, em dois momentos da revisão sem que ele mexesse de fato nessas passagens. Quando comenta sobre o Bucheco, bar frequentado por Fernando Gabeira, Ivan Ângelo e outros, fala de um dos donos, um certo Cláudio Galeno Magalhães Linhares, que ''iria participar, anos mais tarde, de um bem-sucedido sequestro de avião''. Poderia ter escrito agora ''cuja esposa Dilma Rousseff...'', mas deixou como estava. ''Não tinha cabimento falar em Dilma Rousseff em 1992.''
No livro, ele sempre retorna à tradição iniciada com Drummond, já homem casado, e repetida por seus discípulos - Werneck, inclusive -, de caminhar sobre o viaduto de Santa Teresa. Cair de lá seria como despencar de um prédio de seis andares. ''Drummond só tomava leite. Nós enchíamos a cara e subíamos e não sei como ninguém caiu de lá. Em minha última viagem a Belo Horizonte, quando estava indo para o aeroporto, vi que tem uma sucessão de viadutos com nomes desses escritores. Quis fazer uma piadinha: os caras subiam no viaduto e agora eles viraram viaduto, mas não fiz.''
''O Desatino da Rapaziada'' é relançado num momento em que sua editora, a Companhia das Letras, investe em alguns desses famosos mineiros. Já relançou duas obras de Otto Lara Resende e até o fim da semana manda para as livrarias ''A Testemunha Silenciosa'', com duas novelas - a que dá título à obra e ''A Cilada''. Está relançando, também, Pedro Nava. ''Chão de Ferro'', o terceiro em seu catálogo, fica pronto em setembro. De Drummond, sua mais recente aquisição, já deu roupa nova para quase uma dezena de livros e edita, também em setembro, ''Lição de Coisas''. Para completar, começou a trabalhar o acervo de Paulo Mendes Campos, de quem lança, em outubro, ''O Amor Acaba'' e até 2014 outros cinco títulos. Dele, está saindo também, mas pelo Instituto Moreira Salles, ''Carta a Otto ou Um Coração em Agosto''.
Assim, o livro poderia servir como uma espécie de tutorial - leve e divertido - para ajudar o leitor a entender esses autores e a conjuntura que os transformaram em mitos do jornalismo e da literatura.
Serviço:
O Desatino da Rapaziada
Autor: Humberto Werneck
Editora: Companhia das Letras (232 pgs., R$ 39,50)


