HUMANOS DE OUTRO PLANETA
Samir Meserani mostra as relações humanas do ponto de vista de um E.T. em livro dedicado ao público juvenil
Marcos Losnak
Especial para Folha2
Os habitantes do planeta Gênus sempre desejaram entender os habitantes do planeta Terra, mais especificamente os homens. Vários cientistas foram enviados para cá disfarçados, mas nenhum deles conseguiu entender de maneira clara os seres humanos, seres contraditórios capazes de amar e ao mesmo tempo, odiar. Tudo muito confuso para os extraterrestres.
A última opção dos genusianos foi enviar para a Terra um poeta para tentar entender os humanos. Considerando que poesia é poesia em qualquer parte do Universo, acreditavam que um jovem poeta, repleto de curiosidade, daria conta do recado. O escolhido foi o jovem Eugênio, codinome Alter.
As impressões e descrições de Alter sobre a Terra e seus habitantes, em sua estadia no planeta, compõem o livro Os Estranhos Seres Humanos escrito por Samir Meserani recém-lançado pela Editora FTD. Nada como um estranho para ver coisas que normalmente nós humanos não enxergamos por estarmos envolvidos, e ao mesmo tempo desatentos, com o mundo a nossa volta.
Em Os Estranhos Seres Humanos, Alter descreve o que vê, como as coisas se apresentam. Sua visão é livre de qualquer informação prévia. Da cidade à família humana. Em suas descrições tudo é real e próximo. O pai, por exemplo é descrito da seguinte forma: Gosta de fazer cara de bravo. Não costuma mostrar o orgulho que sente dos filhos. Vive dizendo que a mãe os estraga, mima demais. Mas ele se derrete todo quando fala dos filhos para outras pessoas. A mãe: A mãe grita para os filhos acordarem e irem dormir, para irem tomar banho e para saírem do banho, para escovarem os dentes, para fazerem a lição de casa, para arrumarem o quarto. De noite, quando os filhos estão dormindo, ela entra silenciosamente no quarto, vai até a cama e acaricia os cabelos dos filhos, seus filhotes. Seus olhar brilha intensamente, com uma luminosidade úmida que nunca vi igual em qualquer estrela das galáxias que conheço.
Seguindo em suas investigações, pontuadas com alguns problemas e aventuras, Alter descreve a filha, o filho, o amigo e, lógico, o cachorro (uma família sem cão é como um cão sem família): O homem costuma dizer que o cão é o melhor amigo do homem, afirmação muito duvidosa. De que homem ele é amigo? Somente de seu dono. Dos outros é um inimigo que deve ser evitado por sua ferocidade ou chatice.
Com um texto leve com uma dose certa de humor, Samir Meserani coloca um espécie de espelho na frente do leitor. Oferece a possibilidade de reflexão sobre detalhes das relações humanas que geralmente ficam esquecidas, ou apagadas, num canto do cotidiano. Revela como a convivência em família e sociedade passam despercebidas, anestesiados pelo individualismo, pela automação.
Os Estranhos Seres Humanos pode ser comparado com outro ótima obra de Samir Meserani, Os Incríveis Seres Fantásticos (Editora FTD, 1993). Neste outro livro descreve seres fantástico (Unicórnio, Dragão, Sereia, Lobisomem, Fada, Papai Noel, Bruxa, Ninfas, Gnomos, etc.) partindo de um posto de vista imaginativo e ao mesmo tempo real. Autor de vários livros didáticos, principalmente de redação (foi um dos pioneiros da redação criativa na década de 70), Meserani morreu no início deste ano.
Os Estranhos Seres Humanos de Samir Meserani, Editora FTD, ilustrações de César Landucci Neto, 54 páginas, R$ 13,00. Público-alvo: juvenil.





