Humano, Demasiado Humano
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
''Os homens nunca fazem o mal tão completamente e alegremente quanto quando eles fazem isso através da convicção religiosa'', as palavras do filósofo Pascal, citadas em um momento-chave por um dos personagens do filme ''Homens e Deuses'' - que estreia hoje na programação do cine Com-Tour/UEL - ilustram os diversos questionamentos morais e filosóficos que estão presentes dentro da narrativa do longa francês, aclamado pela crítica no Festival de Cannes deste ano.
Baseado em uma história real, durante a primeira hora de projeção do filme somos introduzidos lentamente à rotina frugal de um mosteiro na Argélia, local onde nove monges cristãos convivem em harmonia com a população de um pequeno vilarejo muçulmano, oferecendo tratamento médico e conforto espiritual. Liderados pelo irmão Christian (Lambert Wilson), os irmãos levam uma vida humilde e devotada ao estudo sacerdotal.
A situação pacífica começa a mudar quando chegam notícias perturbadoras de que um grupo extremista islâmico está se aproximando do vilarejo, deixando um rastro de sangue dos 'infiéis'. Consciente das ameaças, o Governo argeliano oferece a proteção do exército para o monastério, e pede para que os monges voltem para a França. O irmão Christian recusa categoricamente: não existe espaço para armas na Casa de Deus, e eles vão lidar sozinhos com as consequências de uma eventual guerra civil.
Amparado por atuações espetaculares de cada um dos personagens - em especial o monge-médico Luc (Michael Lonsdale) - o filme praticamente transcorre dentro das quatro paredes monásticas, e a direção do cineasta Xavier Beauvois permite que o espectador se familiarize com a simplicidade daqueles homens. A projeção adquire, em longos momentos, um caráter puramente contemplativo; observamos os monges colhendo o mel, plantando legumes e recolhendo a lenha, e somos envolvidos pela frágil felicidade que reina nesses detalhes, contraposta com a crescente ameaça no horizonte.
A paz bucólica transmitida pela natureza da região - retratada magnificamente pelas lentes de Caroline Champetier, diretora de fotografia - ajuda a transformar o mosteiro em um local meditativo e atemporal; quase um paraíso, distante dos conflitos mundanos. Por isso mesmo, existe um significado chocante na cena em que um helicóptero militar sobrevoa a área no momento de uma sessão de oração, e as preces são abafadas pelo barulho cortante das hélices.
A projeção atinge o seu ápice quando os irmãos, condenados pelo destino e unidos pela fé, se emocionam ao ouvirem a obra ''O Lago dos Cisnes'', de Tchaikovski. Confrontados pela face fria da própria mortalidade, aqueles personagens não se apresentam como heróis destemidos; eles são apenas humanos virtuosos, dispostos a encarar o abismo do desconhecido pela crença na paz e fé no amor dos homens.
Apontado como um dos favoritos para a seleção na categoria de ''Melhor Filme Estrangeiro'' do próximo Oscar, a beleza de ''Homens e Deuses'' é para um público seleto, que não se incomoda com longos plano-sequência, poucos diálogos e quase nenhuma ação. Fazendo jus à sua história real, o filme preserva a rica subjetividade em seus personagens e, se prestarmos atenção suficiente, conseguimos observar emoções profundas, daquelas que não precisam ser traduzidas em muitas palavras.


