São Paulo, 14 (AE) - Parece que combinaram. Em entrevistas o francês Bertrand Tavernier, falando de seu filme "Quando Tudo Começa..." e o inglês Ken Loach, diretor de "Meu Nome É Joe", não poupam críticas à globalização e ao neoliberalismo econômico. Dizem que a globalização só serve ao governo americano e, no caso de Loach, embora ele reconheça uma melhoria dos números na Inglaterra de Tony Blair, critica o atual primeiro-ministro por ter levado o Partido Trabalhista para o centro, assimilando as reformas econômicas de Margaret Thatcher.
Loach, um trotskista que fez "Terra e Liberdade", ambientado na Guerra Civil espanhola, para discutir o conceito da revolução permanente no fim do milênio, não é um nostálgico das ideologias tradicionais. Mas continua preocupado com questões que muita gente poderá até achar obsoletas. Sua prioridade continua sendo o bom e velho humanismo. "Pela aceitação dos meus filmes, sinto que há uma massa de espectadores em todo o mundo que comunga das minhas idéias." Lembra que "Terra e Liberdade" ficou meses em cartaz em São Paulo. "Meu cinema não compete com os blockbusters de Hollywood
mas atinge uma camada sólida do público", diz.
Ele fala com carinho de "Meu Nome É Joe. Não poupa elogios ao ator Peter Mullan, que faz Joe. "Peter impregnou o personagem de tanta humanidade que acho difícil para qualquer espectador não se comover com ele." Seu método de trabalho com os atores não é rígido. Baseia-se numa sólida pesquisa e na colaboração. "Sou sempre aberto para ouvir o que um ator pode dizer para contribuir na criação do personagem."
Depois de "Meu Nome É Joe, com sua história do desempregado, ex-alcoólatra, que reassume sua dignidade ao treinar um time de futebol de várzea, rodou nos Estados Unidos "Bread and Roses", tratando da cultura de hispano-americanos. Lembra que, antes desse filme, já incursionara pela cultura hispânica com "A Canção de Carla, rodado na Nicarágua. Surpreende-se quando o repórter lhe diz que no Brasil o filme foi recebido como um Terra e Liberdade requentado. "Será que foi pela permanência do tema revolucionário?", pergunta. Em caso afirmativo, diz que vai continuar requentando Terra e Liberdade. Loach não desistiu do conceito da revolução. Sabe que o mundo mudou e até Tony Blair, ao defender a 3.ª Via, gosta de dizer que é como se o capitalismo tivesse descoberto a sua revolução permanente. "Minha revolução é outra", garante Loach.
"Bread and Roses ainda nem estreou e ele já trabalha no próximo filme. Há tempos esse projeto o persegue. The Navigators of Rail pretende discutir as transformações sociais na Inglaterra dos últimos anos por meio da história de um grupo de ferroviários que precisam reavaliar suas vidas (e aspirações) no contexto das privatizações que caracterizaram a era Thatcher.
Loach concorda com o rótulo de social, aplicado ao seu cinema. Mas diz que, por mais importante que seja essa dimensão social, a estética é fundamental. "O cinema é a minha forma de expressão; falharia comigo mesmo se o que eu faço deixasse de ser cinema."

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